O mercado financeiro brasileiro vivenciou uma sessão de euforia nesta quarta-feira, com o Ibovespa alcançando um novo patamar histórico. Pela primeira vez, o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo superou a marca dos 169 mil pontos, impulsionado por um cenário local favorável e, paradoxalmente, por uma complexa série de declarações do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, que gerou tanto alívio quanto novas incertezas. Enquanto o dólar comercial registrava queda e os juros futuros recuavam, a atenção global se dividia entre a performance dos ativos e a geopolítica internacional.
Ibovespa Atinge Novo Patamar Recorde e Mercados Reagem
A euforia no mercado de ações brasileiro foi notável, culminando com o Ibovespa atingindo a máxima de 169.426,08 pontos, representando uma valorização de 1,89%. Esse avanço não apenas estabeleceu um novo recorde histórico para o índice, mas também refletiu um otimismo que se espalhou por outros ativos domésticos. O dólar comercial, por exemplo, registrou uma desvalorização significativa, caindo para R$ 5,34, enquanto as taxas dos contratos de juros futuros também apresentaram recuo, indicando uma percepção de menor risco e expectativas de flexibilização monetária no futuro.
Este desempenho robusto do mercado local contrasta com as tensões geopolíticas que pesavam sobre o sentimento global antes das declarações de Donald Trump. A expectativa por seu discurso em Davos adicionava um componente de cautela, mas a reação inicial dos investidores brasileiros sugeriu uma resiliência ou um foco em fatores internos.
Cenário Global: Davos, Trump e a Dinâmica do Dólar
Em escala global, o discurso de Donald Trump no Fórum de Davos foi o principal catalisador para os movimentos dos mercados. Wall Street abriu o dia com ganhos modestos, com os índices Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq registrando altas. A reação inicial dos investidores americanos foi de certo alívio, especialmente após Trump afirmar que não pretendia usar a força na questão da Groenlândia, amenizando momentaneamente as preocupações com escaladas de tensões.
Contudo, a política 'América Primeiro' continua a reverberar no mercado global. Joyce Chang, presidente de pesquisa global do JPMorgan, destacou que essa abordagem impulsiona silenciosamente a diversificação de ativos em dólar, especialmente entre entidades governamentais. A narrativa de 'Venda dos Estados Unidos' e a busca por alternativas ao dólar estão ressurgindo de forma discreta, mas persistente, o que indica uma reavaliação estratégica de portfólios globais a longo prazo. O índice de volatilidade VIX, conhecido como o 'medidor do medo', também recuou, sinalizando uma diminuição da incerteza imediata nos mercados americanos.
A Retórica de Trump: Economia, Geopolítica e Críticas
As declarações de Donald Trump em Davos abrangeram uma série de tópicos, do econômico ao geopolítico, com um tom característico de críticas e propostas. Em relação à política monetária, Trump manifestou forte desaprovação ao atual presidente do Federal Reserve, classificando-o como “terrível” e “sempre atrasado com a taxa de juros”, além de prometer anunciar um novo presidente em breve caso retorne à Casa Branca. Ele também abordou questões domésticas, como a sugestão ao Congresso de um teto anual nos juros dos cartões de crédito.
No front internacional, o ex-presidente detalhou sua visão sobre várias questões. Em relação à Groenlândia, ele reiterou o desejo dos EUA de adquirir a ilha para sua própria proteção, afirmando que não usaria a força. Sobre a OTAN, Trump alegou que os EUA arcavam com quase 100% dos custos e que ele renegociou essa situação, questionando o compromisso recíproco dos membros. Ele também mencionou negociações com Putin e classificou o conflito na Ucrânia como um “banho de sangue” que ele deseja parar. Em um momento mais leve, expressou gostar do presidente francês Emmanuel Macron, mas não poupou o Canadá de críticas, alegando que o país “consegue muita coisa de nós e não é agradecido”, prometendo inclusive a construção de um “Domo de Ouro” para defendê-lo.
Perspectivas Futuras e Destaques Corporativos
Apesar do cenário de volatilidade global, as expectativas para o mercado brasileiro permanecem otimistas a médio prazo. O JPMorgan, por exemplo, projeta que 2026 pode ser mais um ano de forte entrada de capital estrangeiro na bolsa brasileira, indicando uma visão construtiva para os ativos locais. Essa perspectiva é um contraponto às flutuações diárias e pode sustentar a valorização do Ibovespa a longo prazo.
No âmbito corporativo, o dia teve movimentos contrastantes. As ações da Azul (AZUL53) registraram uma queda acentuada de 10,40%, refletindo provavelmente preocupações específicas do setor aéreo. Em contrapartida, os papéis da Axia (AXIA3 e AXIA6) renovaram suas máximas, com ganhos de 2,96% e 3,05%, respectivamente. Um evento notável fora do foco principal da bolsa foi a liquidação do banco Will, que o Banco Central considerou “inevitável” após a falta de pagamento à Mastercard, um lembrete das fragilidades que ainda podem surgir no sistema financeiro.
Atingir os 169 mil pontos representa um marco significativo para o Ibovespa, sublinhando a força do mercado doméstico em um período de complexidade internacional. Enquanto declarações de líderes globais como Donald Trump continuam a moldar o humor dos investidores e a direcionar debates geopolíticos, a capacidade do mercado brasileiro de absorver essas influências e manter uma trajetória de alta oferece um vislumbre de otimismo. Contudo, a atenção permanece vigilante, ciente de que a interconexão dos mercados e os desdobramentos políticos exigem uma análise constante e adaptável.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

