O mercado de ações da China vive um momento de profunda reconfiguração, impulsionado por uma clara dicotomia em sua vasta economia. Investidores estão cada vez mais direcionando seus recursos para empresas que se beneficiam do robusto setor de exportações industriais, enquanto companhias dependentes do consumo doméstico enfrentam um cenário de desaceleração. Essa divisão acentuada reflete a emergência de um "conto de duas economias", onde o dinamismo da manufatura e da tecnologia ofusca a lentidão dos setores voltados ao consumidor, remodelando as estratégias de investimento de Wall Street e além.
A Dicotomia Econômica e Seus Impulsionadores
A segunda maior economia do mundo tem exibido uma segmentação cada vez mais pronunciada ao longo do último ano. De um lado, o motor industrial e as "novas forças produtivas" impulsionam exportações surpreendentemente resilientes, que conseguiram resistir até mesmo a tensões comerciais passadas. Essa força é notável na manufatura avançada e na infraestrutura ligada à inteligência artificial, criando um apetite global por produtos e componentes chineses. Do outro lado, o consumo doméstico permanece aquém das expectativas, fragilizado por uma prolongada crise no setor imobiliário e pela cautela dos consumidores, que têm impactado diretamente o desempenho de empresas ligadas a bens e serviços de consumo.
O Voo das Campeãs Industriais e Tecnológicas
A percepção de que existem "duas Chinas muito diferentes" tem levado analistas e bancos de investimento, como Morgan Stanley e JPMorgan Asset Management, a um otimismo renovado em relação a ações de empresas industriais. Essas companhias, que vão de fabricantes de máquinas a construtoras de redes elétricas, estão surfando uma onda de forte demanda global. Empresas como a <b>China XD Electric</b>, que atua em projetos de linhas de transmissão de ultra-alta tensão, viu suas ações valorizarem 75% no ano. Da mesma forma, a fabricante de componentes elétricos <b>TBEA</b> acumulou uma alta de cerca de 28% no mesmo período, refletindo a demanda por infraestrutura de IA e equipamentos eletrônicos.
O Morgan Stanley, em um relatório recente, destacou um grupo de ações com potencial de crescimento, incluindo a <b>Sany Heavy Industry</b>, <b>Jiangsu Hengli Hydraulic</b>, <b>Han’s Laser Technology Industry Group</b> e <b>Wuxi Lead Intelligent Equipment</b>. Analistas do banco, como Sheng Zhong, observam que o setor de máquinas para construção está entrando em um ciclo de melhora, beneficiado tanto pela recuperação doméstica quanto pela robusta demanda externa. William Bratton, do BNP Paribas Exane, reitera essa preferência, apontando para o desempenho superior de setores como materiais, industriais e tecnologia, evidenciado nas tendências de lucros e dados econômicos.
Os Desafios do Consumo Doméstico e a Cautela dos Investidores
Em contraste com o vigor industrial, as ações ligadas ao consumo têm apresentado uma performance modesta ou negativa. Papéis da <b>Fuyao Glass Industry Group</b> registraram uma queda de 5,4% no ano, enquanto os da montadora <b>Great Wall Motor</b> recuaram 4,6%. Essa performance reflete a hesitação dos investidores institucionais em apostar em uma recuperação doméstica ampla, preferindo focar em empresas com potencial de crescimento de lucros no tema "going global", ou seja, aquelas com forte atuação internacional.
Chaoping Zhu, estrategista de mercados globais do JPMorgan Asset Management, observa que, embora as autoridades chinesas tenham estabelecido a retomada do consumo como uma prioridade econômica, a cautela prevalece no mercado. Os formuladores de política também enfatizam a manufatura avançada e a tecnologia como novos motores de crescimento, com o mercado acionário desempenhando um papel crucial no apoio à formação de capital e à alocação de riqueza das famílias.
Perspectivas e os Riscos de uma Economia em Duas Velocidades
Embora o cenário para as empresas industriais chinesas seja promissor, existem riscos, como a possibilidade de uma reação de países preocupados com um influxo de produtos baratos. Contudo, o ímpeto dessa economia em "duas velocidades" permanece forte. As projeções de lucro para o índice <b>CSI 300 Industrials</b> aumentaram 10% nos últimos seis meses, enquanto o equivalente do setor de consumo teve uma alta de apenas 5%, conforme dados compilados pela Bloomberg. Essa disparidade sugere que a "outperformance" do setor industrial, impulsionada pela corrida da inteligência artificial e pela necessidade global de não ficar para trás, deve continuar, segundo Min Lan Tan, do UBS Group AG.
No setor de consumo, apesar do cenário atual, alguns analistas ponderam que as avaliações de mercado podem se tornar atraentes para investidores em busca de barganhas, caso as políticas de estímulo ao consumo de Pequim comecem a surtir efeito mais significativo. Contudo, por ora, a estratégia dominante se inclina para as empresas que capitalizam o dinamismo exportador e a vanguarda tecnológica.
Conclusão
A dualidade econômica da China está, sem dúvida, redesenhando as abordagens de investimento em seu mercado de ações. A preferência por campeãs industriais e tecnológicas, impulsionadas pela demanda global e pela inovação em IA, em detrimento de empresas sensíveis ao consumo doméstico, reflete uma transformação estrutural. Embora os desafios para o consumo persistam e os riscos externos para as exportações exijam atenção, a performance superior do setor industrial chinês sinaliza uma nova era de investimento seletivo, onde a capacidade de inovar e de competir no cenário global será o principal diferencial para o sucesso no mercado acionário do gigante asiático.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

