O cenário global de negócios apresenta-se, mais do que nunca, como um terreno movediço para líderes em diversas indústrias. A perspectiva para 2026, permeada pela acelerada transformação impulsionada pela Inteligência Artificial, pela persistente instabilidade geopolítica e por rupturas econômicas imprevisíveis, tem gerado considerável apreensão. Nesse ambiente volátil, a capacidade de traçar planos de longo prazo é constantemente desafiada, tornando a gestão da incerteza uma habilidade não apenas desejável, mas absolutamente crítica para a sobrevivência e o florescimento organizacional.
A Ascensão da Incerteza Global e o Desafio da Liderança
As evidências da crescente imprevisibilidade são contundentes. Um renomado projeto acadêmico, que monitora a incerteza da política econômica global desde os anos 1980, revela que as cinco maiores medições de incerteza em sua história ocorreram nos últimos cinco anos. A percepção de um futuro nebuloso ressoa também no ambiente corporativo, com menções à “incerteza” em avaliações no Glassdoor registrando um aumento de 80% em relação ao ano anterior. Além disso, a própria palavra marcou presença em 87% dos comunicados públicos de resultados no início de 2025, sublinhando a ubiquidade do tema. Conforme observou Sam Yagan, cofundador do OKCupid, a habilidade de lidar com a ambiguidade é, isoladamente, o maior indicador de sucesso para um executivo.
Diante deste panorama, o desafio para os líderes transcende a mera adaptação; exige uma reconfiguração fundamental de suas abordagens. Desenvolver uma tolerância robusta à incerteza — a capacidade de suportá-la tempo suficiente para discernir novas oportunidades — é agora um imperativo estratégico. Explorando insights de psicólogos, economistas e filósofos de ponta sobre esta competência vital, destacam-se três princípios-chave para fortalecer a resiliência em tempos de mudança.
Encontre Suas Âncoras em Meio à Tempestade
Em um contexto de ampla volatilidade, estabelecer pontos de certeza em algumas esferas da vida ou do negócio pode paradoxalmente facilitar a sustentação da incerteza em outras. Para um líder empresarial, essas “âncoras” podem ser elementos inabaláveis como os valores centrais da empresa ou um compromisso inegociável com um cliente-alvo específico. Ao demarcar quais aspectos do seu empreendimento permanecerão constantes, mesmo diante de transformações radicais, o líder se capacita para navegar com maior segurança pelos desafios desconhecidos que se apresentam.
Um exemplo notável desta estratégia emerge da experiência de Brian Chesky, cofundador e CEO do Airbnb. No início de 2020, enquanto preparava a empresa para uma das maiores ofertas públicas iniciais (IPO) de tecnologia, avaliada em mais de US$ 30 bilhões, o mundo foi abruptamente atingido pela pandemia de Covid-19. O Airbnb sofreu uma perda drástica de 80% da receita, e o IPO foi adiado. Confrontado com uma incerteza sem precedentes, Chesky estabeleceu quatro princípios norteadores: agir rapidamente, preservar o caixa, considerar todos os stakeholders e posicionar a empresa para a próxima temporada de viagens. Ele articulou que, em uma crise, as decisões devem ser de "princípio, não de negócio" — ou seja, baseadas em valores fundamentais e independentes do resultado imediato. Esses princípios serviram como pilares para Chesky, guiando o Airbnb ao longo de 2020 e posicionando-o para um sucesso retumbante quando o setor de viagens se recuperou, culminando em um IPO em dezembro de 2020 que alcançou uma capitalização de mercado de US$ 86,5 bilhões após o primeiro dia de negociação.
A Cultura da Experimentação: Construindo para Aprender
Quando o futuro se mostra incerto, a tendência natural é investir em planejamento meticuloso. Contudo, no ritmo acelerado do mundo contemporâneo, a excessiva dedicação ao planejamento pode, paradoxalmente, retardar o progresso. A filosofia de “construir para aprender” sugere uma abordagem mais ágil e experimental. Na Ideo, por exemplo, a máxima era “Nunca venha a uma reunião sem um protótipo”. A utilização de experimentos de baixa fidelidade funcionava como uma poderosa ferramenta de aprendizado, evitando discussões prolongadas sem base empírica. Essa metodologia, aliás, tornou-se ainda mais acessível e eficiente na era da Inteligência Artificial generativa, que permite a rápida criação e teste de ideias.
Danielle Feinberg, supervisora de efeitos visuais da Pixar, demonstrou o poder dessa abordagem em um período de incerteza para a indústria cinematográfica – menos espectadores, cortes orçamentários e a exigência de fazer mais com menos. Em meio à pressão, a equipe sentia-se sem espaço para inovar. Feinberg, então, propôs transformar os “dias mortos” do ciclo de desenvolvimento de filmes – períodos em que a equipe aguardava o feedback de um conselho de especialistas – em “dias de inovação”. Nestes dias, os colaboradores eram encorajados a trabalhar em projetos de sua livre escolha, mesmo que sem aplicação prática imediata, e depois compartilhar suas criações. Um membro da equipe aproveitou a oportunidade para testar um experimento técnico há muito desejado, reaproveitando um software de animação. O resultado foi surpreendente: a equipe conseguiu resolver em horas um problema que antes levava semanas. A iniciativa não visava maximizar a produtividade direta, mas sim promover a experimentação, que gerou aprendizado e, por sua vez, impulsionou o progresso de forma orgânica.
Navegando na Neblina: Estratégias para Manter a Calma e a Clareza
Perceber a incerteza como uma ameaça iminente desencadeia uma resposta fisiológica primária: o sangue se afasta do cérebro e se direciona para os músculos, preparando o corpo para a reação de lutar ou fugir. Nesse estado de estresse agudo, a capacidade de raciocínio lógico, a criatividade e a tomada de decisões estratégicas são comprometidas. Líderes sob essa pressão podem reagir de forma impulsiva, ou, por outro lado, paralisar-se pela indecisão, ambos desfavoráveis para a condução de suas equipes e organizações.
Para "remar através da neblina" da incerteza, é fundamental que os líderes desenvolvam estratégias para mitigar essa resposta de estresse e manter a clareza mental. Isso pode envolver práticas de mindfulness para aterrar-se no presente, a reframing da incerteza como uma fonte de potencial e inovação, em vez de perigo, ou a implementação de processos decisórios que fragmentam problemas complexos em etapas gerenciáveis. Cultivar a autoconsciência sobre as próprias reações ao estresse permite que o líder identifique quando está entrando em um modo reativo e, assim, aplique técnicas para restabelecer a calma e a perspectiva. Ao manter a compostura e uma abordagem metódica, mesmo quando o caminho à frente não está totalmente visível, o líder não apenas toma decisões mais ponderadas, mas também projeta uma imagem de segurança e controle, inspirando confiança em sua equipe e stakeholders.
Conclusão: Resiliência como Pilar da Liderança Inovadora
O ambiente de negócios contemporâneo exige mais do que adaptabilidade; clama por uma profunda resiliência e a capacidade de prosperar em meio ao desconhecido. Os princípios de encontrar âncoras, construir para aprender e navegar com clareza através da neblina não são meras táticas, mas fundamentos para uma liderança eficaz e inovadora. Ao internalizar essas abordagens, os líderes não apenas se preparam para enfrentar as turbulências inevitáveis, mas também cultivam um mindset que enxerga na incerteza um catalisador para a criatividade e o crescimento. Em um mundo onde a única constante é a mudança, a tolerância à incerteza emerge como a bússola essencial para guiar organizações rumo ao sucesso duradouro.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

