A morte de Alex Pretti, um enfermeiro de 37 anos, em Minneapolis, no último sábado (24), desencadeou não apenas uma tragédia em solo americano, mas também uma proliferação de desinformação e narrativas fabricadas nas redes sociais. Enquanto vídeos verificados e relatos de testemunhas pintam um quadro claro do incidente envolvendo agentes federais de imigração, influenciadores pró-Trump e outros perfis online rapidamente embaralharam as evidências, distorcendo os acontecimentos para se alinhar com agendas políticas específicas.
O episódio, que ocorreu duas semanas após o assassinato de Renee Good por um agente do ICE, intensificou os confrontos já existentes entre as forças da lei e manifestantes na região. A velocidade com que a narrativa foi manipulada online reflete a crescente polarização e o desafio de discernir a verdade em um cenário digital fragmentado.
Os Fatos do Confronto e a Versão Oficial Contestada
Imagens autenticadas e depoimentos de testemunhas detalham o momento em que Alex Pretti, um cidadão dos Estados Unidos sem antecedentes criminais conhecidos e portador legal de uma arma de fogo, foi fatalmente ferido. De acordo com os registros visuais e relatos, Pretti interveio ao se colocar à frente de uma mulher que estava sendo atingida por spray de pimenta por um agente. Após essa ação, ele foi imobilizado pelos federais.
O vídeo mostra claramente que, enquanto imobilizado, um agente removeu a pistola que Pretti possuía legalmente, e que ele não havia sequer sacado. Logo em seguida, outro agente atirou repetidamente em suas costas. A cena caótica, capturada por diversos ângulos, contrasta drasticamente com a versão inicial propagada por altos funcionários do governo Trump, que fizeram acusações infundadas de terrorismo doméstico contra Pretti, apesar de ele estar desarmado e imobilizado no momento do disparo.
A Orquestração da Desinformação nas Redes Sociais
A internet rapidamente se tornou um campo de batalha para a verdade após a morte de Pretti. Influenciadores alinhados à narrativa pró-Trump desempenharam um papel central na disseminação de informações falsas. Nick Sortor, com 1,4 milhão de seguidores na plataforma X, identificou erroneamente Pretti como um imigrante em situação irregular, apesar de ele ser um cidadão norte-americano.
Outra figura proeminente, Jack Posobiec, um aliado de Trump com 3,3 milhões de seguidores no X, descreveu Pretti de forma enganosa, alegando que ele teria “avançado contra a polícia” e “sacado uma arma” – afirmações que foram corrigidas por outros usuários com notas anexadas. Além disso, fotografias de homens distintos, alguns vestidos em drag ou sem camisa em festivais, foram falsamente atribuídas a Pretti e amplamente compartilhadas, buscando difamá-lo ou rotulá-lo como um ativista radical. Tentativas de contato com Posobiec, Sortor e a Casa Branca para comentários não obtiveram resposta imediata.
Manipulação Digital: O Uso de Inteligência Artificial para Distorcer Imagens
A campanha de desinformação não se limitou a textos e declarações falsas. A manipulação de imagens, muitas vezes com o auxílio de inteligência artificial, tornou-se uma ferramenta poderosa para moldar a percepção pública. Embora as imagens originais do confronto fossem tremidas, elas se tornaram combustível para o debate online e foram rapidamente adulteradas para servir a narrativas específicas.
Um exemplo notável foi a edição de uma imagem para retratar Pretti apontando uma arma para um agente, quando, na verdade, ele estava segurando um celular. Outra imagem foi supostamente “melhorada” com o Gemini, uma ferramenta de IA do Google, para “revelar detalhes-chave”. No entanto, essa versão modificada continha erros gritantes, incluindo alterações no rosto de Pretti e, de forma mais significativa, a remoção de uma arma da mão de um agente, intensificando o debate nas redes sociais sobre o que realmente aconteceu e quem estava armado.
O Contexto Político e as Repercussões Amplas
A enxurrada de atividade online e a distorção dos fatos refletem narrativas políticas mais amplas que emergiram após o tiroteio. As alegações do governo Trump de que Pretti seria responsável pela própria morte, e as repetidas acusações infundadas de terrorismo doméstico contra ele, alinham-se com uma retórica mais ampla que busca criminalizar dissentimentos e justificar ações policiais agressivas.
Embora a maioria das contas conservadoras tenha ecoado a versão do governo, algumas vozes se destacaram ao contestar os extremos. Tim Pool, um podcaster de direita, por exemplo, escreveu no X que Pretti “claramente não tinha a intenção de massacrar o ICE”, em resposta à sugestão de que o enfermeiro planejava uma chacina. Contudo, essa ressalva foi ofuscada pela vasta replicação da narrativa oficial adulterada, dificultando a construção de um consenso sobre os fatos.
A morte de Alex Pretti em Minneapolis serve como um sombrio lembrete da velocidade e eficácia com que a desinformação pode ser disseminada em ambientes digitais altamente polarizados. A manipulação de fatos, testemunhos e até mesmo imagens, muitas vezes com o auxílio de tecnologias avançadas, mina a capacidade do público de compreender a realidade de eventos críticos. Este caso sublinha a responsabilidade contínua de jornalistas e da sociedade civil em verificar informações e confrontar narrativas falsas, especialmente quando vidas são perdidas e a verdade se torna uma vítima colateral da guerra da informação.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

