Os mercados financeiros globais estão em alerta máximo, com operadores de câmbio de Tóquio a Nova York intensificando suas posições em uma aposta significativa na desvalorização do dólar. Esse movimento, que alguns interpretam como uma forma de "abandonar silenciosamente" os Estados Unidos, culminou em uma onda de vendas que impulsionou a moeda americana à maior queda desde as salvas tarifárias do ex-presidente Donald Trump em abril. No centro dessa renovada incerteza está, novamente, o próprio Trump, cujas declarações e o prospecto de um segundo mandato têm sido um catalisador decisivo para a volatilidade cambial.
A 'Aposta na Desvalorização' Retorna com Força
A recente instabilidade do dólar é reflexo direto da crescente aversão ao risco, com investidores buscando proteção contra uma depreciação ainda mais acentuada da moeda. Essa postura de cautela, que se traduz na compra de hedges ou na redução da exposição a ativos americanos, é alimentada pela memória de um período de quase 10% de queda no índice Bloomberg Dollar Spot durante um segundo mandato hipotético de Trump, levando o dólar ao seu nível mais baixo desde 2022. O mês de janeiro, por exemplo, viu o dólar cair 1,3%, marcando seu pior desempenho mensal desde agosto.
Anteriormente, após uma forte desvalorização no primeiro semestre de 2025, o dólar havia encontrado certa estabilidade. Isso se deu em meio à moderação das tensões tarifárias, ao rali das empresas de tecnologia e à resiliência da economia americana. Contudo, as novas incertezas políticas e econômicas, muitas delas ligadas à retórica de Trump, reacenderam o debate sobre a sustentabilidade da força do dólar, com a 'aposta na desvalorização' ressurgindo com ímpeto renovado.
A Estratégia 'America First' e Seus Efeitos no Câmbio
A visão de "America First" de Donald Trump e sua abordagem de ruptura com a ordem econômica do pós-guerra são apontadas como fatores cruciais para os novos riscos enfrentados por investidores estrangeiros. A retomada das ameaças tarifárias, a pressão para que o Federal Reserve corte as taxas de juros, as declarações sobre o domínio no hemisfério ocidental e a confrontação com aliados europeus – como na defesa de que os EUA assumissem o controle da Groenlândia – têm levado muitos a repensar sua exposição ao dólar. Além disso, a polarização política interna e os riscos fiscais crescentes também adicionam um peso significativo à moeda.
Apesar do discurso oficial em defesa de um dólar forte, persiste a suspeita de que o governo poderia estar disposto a tolerar, ou até mesmo desejar, uma moeda mais fraca para impulsionar a competitividade dos produtos americanos no exterior. Essa percepção reforça a conclusão de que a era da acumulação automática de dólares pode estar chegando ao fim, com impactos diretos para a demanda por títulos do Tesouro americano, tradicionalmente financiados por trilhões de dólares em investimentos estrangeiros.
O Cenário Global e as Perspectivas de Mercado para o Dólar
A fragilidade recente do dólar não se restringe apenas às manobras políticas. Outros fatores globais também contribuem para o cenário. A expectativa de novos cortes nas taxas de juros pelo Federal Reserve, a recuperação econômica observada fora dos Estados Unidos e os sinais do Japão de que não permitirá uma desvalorização excessiva do iene são elementos que exercem pressão adicional sobre a moeda americana. O fortalecimento de outras economias e a busca por taxas de juro mais competitivas em outras regiões podem desviar capital que tradicionalmente se ancorava no dólar.
Analistas de mercado observam com preocupação essa dinâmica. Padhraic Garvey, do ING, descreve o dólar como seguindo "o caminho de menor resistência, para baixo", interpretando isso como uma preferência implícita da administração, embora com ressalvas sobre a velocidade da queda. Stephen Jen, da Eurizon SLJ Capital, alerta para uma possível "correção estrutural" da moeda. Pramol Dhawan, da Pimco, vai além, indicando uma "mudança de regime" que pode levar investidores estrangeiros a reduzir suas compras de Treasuries e redirecionar capital para seus próprios mercados, um movimento já evidenciado pelo desempenho superior de bolsas fora de Wall Street.
Oscilações Recentes e a Busca por Estabilidade
O movimento de vendas mais recente no mercado cambial foi deflagrado por uma série de eventos específicos. Inicialmente, as ameaças de Trump de impor tarifas à Europa, caso a Dinamarca não cedesse a Groenlândia aos EUA, provocaram uma queda nas bolsas. Posteriormente, rumores de um possível apoio americano a uma intervenção para fortalecer o iene e comentários do próprio Trump elogiando um dólar mais fraco adicionaram combustível à depreciação. A despeito dos esforços do Secretário do Tesouro, Scott Bessent, para conter os danos, reiterando o compromisso do governo com um dólar forte, a desconfiança persistiu.
Houve um breve alívio na última sexta-feira, após a notícia de que Trump havia indicado Kevin Warsh, ex-diretor do Fed, para substituir Jerome Powell. Essa escolha foi interpretada como um sinal de menor interferência política nas decisões de juros, o que reduziu temporariamente os temores de desestabilização e impulsionou uma valorização do dólar. No entanto, essa recuperação foi pontual, e as incertezas subjacentes sobre a política econômica e a postura de Trump continuam a pautar as expectativas para a moeda americana.
Em suma, os temores em torno do dólar estão mais intensos do que nunca, impulsionados pela perspectiva de um segundo mandato de Donald Trump e suas políticas de 'America First'. A conjunção de fatores políticos e econômicos, tanto internos quanto externos, sugere um futuro volátil para a moeda, desafiando a percepção tradicional de sua estabilidade e primazia no cenário financeiro global.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

