Em um movimento que demarca sua posição política e aprofunda as tensões com o Palácio do Planalto, o Progressistas (PP) elegeu como pauta prioritária para o retorno dos trabalhos no Congresso Nacional a mobilização para derrubar o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a um projeto crucial de regularização fundiária. Esta ofensiva parlamentar ocorre em um cenário político peculiar, onde a sigla busca afirmar sua agenda, mesmo mantendo quadros em posições estratégicas no governo federal, revelando uma dinâmica complexa de autonomia e aliança.
A Batalha pela Regularização Fundiária na Faixa de Fronteira
A prioridade estabelecida pelo PP mira a reversão de uma decisão presidencial que barrou um projeto de regularização fundiária em áreas de fronteira. A senadora Tereza Cristina (PP), uma das vozes mais contundentes do partido, classificou o veto como uma medida injusta e prejudicial, especialmente para milhares de pequenos produtores rurais em todo o país. Segundo a parlamentar, a atitude do governo ignora um acordo previamente construído e aprovado com ampla maioria no Parlamento, o que gera grande insatisfação na bancada do agronegócio.
A parlamentar criticou duramente a decisão, afirmando que ela representa uma 'medida irracional que cria insegurança e trava o desenvolvimento do campo'. Para o PP, a regularização fundiária é vista como essencial para garantir a prosperidade, o acesso a crédito e a estabilidade de produtores, sendo um tema de forte apelo em diversas bases eleitorais do partido, especialmente no interior e junto ao setor do agronegócio. A bancada se mostra determinada a reverter o veto, reafirmando que não abrirá mão da defesa da segurança jurídica e dos direitos de quem vive do trabalho rural.
Distanciamento Político e o Rompimento da Federação
A postura incisiva do Progressistas acontece em meio a um processo mais amplo de distanciamento entre o partido e o governo Lula. Em setembro de 2023, a federação formada pelo PP e pelo União Brasil formalizou sua saída da base aliada no Congresso Nacional. A determinação, divulgada em nota pelos presidentes das duas legendas, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Antônio Rueda (União Brasil), exigia que todos os filiados com mandatos renunciassem aos cargos que ocupavam no Executivo federal, incluindo ministérios, dentro de um prazo específico.
A orientação para o desembarque foi justificada pelos líderes partidários como um gesto de coerência política, diante de divergências programáticas e na condução do governo. O objetivo era reposicionar a federação no espectro político à direita, distanciando-se do Partido dos Trabalhadores (PT) e buscando uma nova identidade estratégica para as próximas disputas eleitorais. Este movimento indicava uma clara intenção de oposição no Legislativo.
O Paradoxo da Presença na Esplanada e a Dissonância Partidária
Apesar do anúncio formal de saída da base aliada e da diretriz para que seus membros deixassem cargos no Executivo, a execução desse desembarque tem sido parcial e repleta de nuances. Um dos casos mais emblemáticos é o do deputado federal licenciado e Ministro do Esporte, André Fufuca (PP), que optou por permanecer na Esplanada dos Ministérios. A sua decisão, em desacordo com a orientação partidária, resultou em sanções internas, como o afastamento de funções executivas dentro do partido – ele perdeu a vice-presidência nacional e o comando do diretório no Maranhão – mas não o levou a deixar a legenda ou a pasta ministerial.
A situação de Fufuca não é isolada. O PP, assim como o União Brasil, ainda conta com outros filiados em órgãos e posições estratégicas ligadas ao governo federal. Levantamentos anteriores revelaram que, há alguns meses, a federação PP-União Brasil mantinha cerca de 140 correligionários em cargos importantes. Essa manutenção de quadros na estrutura governamental, mesmo após a declaração de independência parlamentar, expõe a complexidade das relações políticas e a dificuldade de impor uma disciplina partidária rígida em um cenário de alianças dinâmicas e pragmatismo.
Implicações e o Futuro das Alianças
A postura do Progressistas em priorizar a derrubada do veto presidencial, ao mesmo tempo em que parte de seus membros se mantém no governo, ilustra a complexidade do atual xadrez político brasileiro. A sigla busca consolidar sua identidade e sua influência legislativa em temas caros à sua base, como a agenda do agronegócio, enquanto navega pelas águas turvas de uma aliança formalmente rompida, mas funcionalmente ambígua. Essa dinâmica sublinha a capacidade de partidos de projetarem poder e agenda, mesmo diante de vetos presidenciais, num contínuo exercício de negociação e afirmação política.
Este cenário desafia a tradicional lógica das relações entre Executivo e Legislativo, colocando em evidência as nuances das federações partidárias e a busca por espaço e relevância. A mobilização em torno da regularização fundiária não é apenas uma pauta setorial; é um teste da força do PP e de sua capacidade de influenciar decisões, ao mesmo tempo em que demonstra a flexibilidade (ou a fratura) de suas posições em relação ao governo federal, preparando o terreno para futuras articulações e disputas eleitorais.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

