As taxas dos juros futuros no Brasil registraram quedas expressivas na última terça-feira, impulsionadas por uma combinação de fatores domésticos. A ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que reafirmou as perspectivas para o início do ciclo de cortes da taxa Selic em março, foi o principal catalisador. Adicionalmente, declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre os possíveis nomes para preencher diretorias vagas no Banco Central (BC), somaram-se ao otimismo do mercado, que também observou uma forte alta do Ibovespa e desvalorização do dólar.
Ata do Copom: Sinal Verde para o Corte da Selic
A divulgação da ata do Copom, antes da abertura do mercado, foi decisiva para o desempenho dos DIs. O documento do Banco Central indicou que a calibração da magnitude e duração do ciclo de flexibilização monetária será definida progressivamente, conforme novas informações econômicas forem analisadas. O Comitê sublinhou que a decisão é compatível com o cenário atual, que ainda apresenta sinais mistos sobre o ritmo da atividade econômica e seus impactos inflacionários, reforçando, contudo, o compromisso com a meta de inflação de 3%.
O BC destacou uma melhoria na inflação corrente e a aproximação das expectativas de mercado em relação à meta, fatores que contribuem para a confiança em um futuro corte. Com a Selic mantida em 15% na semana anterior, a expectativa para uma redução em março ganhou força. Entre os investidores, a principal incerteza residia na dimensão do primeiro corte – 25 ou 50 pontos-base. Dados de opções do Copom indicavam uma probabilidade de 50% para um corte de 50 pontos-base, contra 34% para 25 pontos, evidenciando a inclinação do mercado por uma ação mais incisiva.
Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, comentou que a ata confirmou as expectativas de corte, ao mesmo tempo em que contextualizou os desafios do BC, incluindo preocupações fiscais e com o mercado de trabalho. Para Spiess, essa abordagem é fundamental para assegurar que a redução dos juros não será percebida como uma medida imprudente pelo mercado.
Rumores sobre Diretores do Banco Central e Reação do Mercado
Paralelamente à influência do Copom, declarações de Fernando Haddad contribuíram para o movimento de queda dos DIs. O ministro da Fazenda revelou ter sugerido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva os nomes dos economistas Guilherme Mello e Tiago Cavalcanti para as diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, respectivamente, no Banco Central.
A possível indicação de Guilherme Mello, atual secretário de Política Econômica da Fazenda, gerou alguma apreensão inicial no mercado. Mello, com formação e doutorado em economia heterodoxa pela PUC-SP e Unicamp, é visto por parte dos investidores como um perfil que poderia sinalizar uma guinada mais "dovish" (suave) na política monetária do BC. Spiess, da Empiricus Research, pontuou o paradoxo: para cortar juros de forma eficaz, é preciso ter um Banco Central com credibilidade, que esteja disposto a subir os juros quando necessário para manter a confiança do mercado. Tiago Cavalcanti, por sua vez, membro do Trinity College da Universidade de Cambridge e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), foi sugerido para a Diretoria de Organização do Sistema Financeiro. Haddad, contudo, esclareceu que o presidente Lula ainda não formalizou nenhum convite aos mencionados.
Cenário Macroeconômico e Fatores Externos
O ambiente econômico doméstico favorável também desempenhou um papel relevante na trajetória dos juros futuros. O Ibovespa registrou um forte avanço, impulsionado por um contínuo fluxo de capital estrangeiro para o Brasil, enquanto o dólar registrava queda. Esse panorama contribuiu significativamente para o recuo da curva a termo.
No cenário internacional, o movimento dos juros futuros ocorreu, em grande parte do dia, a despeito do avanço dos rendimentos dos Treasuries norte-americanos. Investidores estrangeiros estavam atentos aos desdobramentos de uma paralisação parcial do governo dos Estados Unidos. No entanto, ao final do pregão, os yields dos Treasuries já exibiam leves baixas, com o rendimento do Treasury de dez anos, referência global, caindo 1 ponto-base para 4,268%.
Perspectivas para a Política Monetária
A conjunção de sinais vindos da ata do Copom, que delineou uma postura cautelosa, mas aberta à flexibilização, e as discussões em torno da composição da diretoria do Banco Central, somada ao ambiente doméstico de valorização de ativos e depreciação cambial, criou um terreno fértil para a queda dos juros futuros. A expectativa do mercado para o início do ciclo de cortes da Selic em março se solidifica, enquanto os investidores monitoram de perto os próximos passos do Banco Central e as definições políticas que poderão moldar a trajetória da economia brasileira.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

