Em um cenário que misturava a exclusividade da alta gastronomia com a reverência à história, renomados especialistas de vinho se reuniram em um restaurante estrelado pelo Guia Michelin, na região centro-leste da França. O objeto de sua atenção não era um prato exótico, mas uma garrafa de aparência envelhecida: um Romanée-Conti 1899, do lendário Domaine de la Romanée-Conti (DRC), um dos vinhedos mais prestigiados da Borgonha. Este exemplar, cuja autenticidade foi confirmada pela inscrição original do ano na rolha, visível através do vidro, representava mais do que uma bebida; era uma relíquia líquida, avaliada em cerca de € 100 mil, equivalente a mais de R$ 600 mil. Contudo, em uma decisão surpreendente, o empresário e investidor de vinhos de Singapura, Soo Hoo Khoon Peng, optou por quebrar o protocolo e descorar a garrafa para celebrar seu 50º aniversário, um ano após sua aquisição.
Um Legado Líquido: A Extraordinária Jornada de um Vinho Centenário
A história por trás do Romanée-Conti 1899 é tão fascinante quanto seu valor. Este vinho remonta à aristocracia francesa, tendo sido originalmente adquirido e cuidadosamente guardado por décadas pela família Brou de Laurière. Após o falecimento de um de seus descendentes em 2011, a garrafa, em um estado que mascarava sua verdadeira identidade, foi subvalorizada em um leilão local. Acabou sendo vendida por poucas dezenas de euros, como parte de uma caixa genérica de 'vinhos tintos do século XIX'. Foi apenas a perspicácia de um colecionador atento que revelou a joia escondida, identificando o Romanée-Conti 1899, que eventualmente chegou às mãos de Soo Hoo Khoon Peng através da Maison Pion.
Mais que Luxo: O Significado por Trás de uma Garrafa 'Unicórnio'
O Domaine de la Romanée-Conti sempre foi sinônimo de exclusividade e excelência. Outrora um privilégio da nobreza europeia, hoje seus vinhos são disputados por colecionadores e bilionários, movimentando somas impressionantes em leilões ao redor do mundo. Um exemplo notável é a safra de 1945, que já alcançou a marca de US$ 558 mil em um único leilão, solidificando a reputação do DRC como um dos mais valiosos do planeta. A garrafa de 1899, descrita como um verdadeiro 'unicórnio' pela sua raridade e idade, transcende o mero objeto de luxo, representando um investimento cultural e uma peça cobiçada no universo do envelhecimento de vinhos.
Desafiando o Tempo: A Resiliência Incomum de um Grande Vinho
A sobrevivência de um vinho por 127 anos é um testemunho de sua qualidade excepcional e das condições ideais de armazenamento. Produzido com uvas Pinot Noir de pé-franco – videiras que não foram enxertadas em raízes americanas –, este Romanée-Conti resistiu à devastação da filoxera, a duas guerras mundiais e a mais de um século em adega. Apenas vinhos com altíssimo potencial de envelhecimento podem suportar tal passagem do tempo, exigindo condições quase perfeitas para manter sua integridade. O ullage, o espaço de ar no gargalo, mantinha-se em um nível compatível com um vinho ainda em bom estado, um feito extraordinário para um exemplar de sua idade, garantindo a expectativa de uma experiência sensorial única.
O Momento da Verdade: A Degustação de um Ícone da Enologia
Finalmente, o grupo seleto de convidados de Soo Hoo Khoon Peng pôde provar o Romanée-Conti 1899. Na taça, revelou uma coloração âmbar com sutis reflexos alaranjados, um convite visual à sua idade venerável. Os aromas eram complexos e etéreos, remetendo a chá, ameixa em conserva e delicadas flores secas. William Kelley, editor-chefe do renomado 'The Wine Advocate', observou que, 'aos 127 anos, a fruta primária havia desaparecido', cedendo lugar a uma presença mais profunda e misteriosa. Olivier Pion, da Maison Pion, classificou o resultado como 'um milagre', destacando a extraordinária capacidade de preservação do vinho. Para Soo Hoo, o alívio era palpável: 'O fato de o vinho ainda estar vivo já é um alívio', expressando a emoção de testemunhar a longevidade de uma obra-prima líquida.
A abertura e degustação deste Romanée-Conti 1899 transcendem o consumo de uma bebida de luxo. A decisão de Soo Hoo, motivada pelo 'aprendizado e conexão humana' em vez de mero status, transformou uma relíquia em uma ponte para o passado, um registro vivo de uma era distante. O evento não só celebrou o aniversário de um homem, mas também a resiliência de um vinho que desafiou o tempo, a história e as expectativas, oferecendo uma experiência sensorial e cultural verdadeiramente inesquecível e um vislumbre do que significa a imortalidade na garrafa.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

