Reajuste da CMED Abaixo do Esperado: Um Olhar Nuanceado sobre o Setor Farmacêutico e as Ações

A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) recentemente divulgou os parâmetros para o reajuste anual de preços de 2026, com o fator X fixado em 2,684% – uma elevação em relação ao ano anterior – e o fator Y zerado, indicando que saldos acumulados foram suficientes para compensar pressões de 2025. Embora a leitura inicial sugira um cenário de reajuste abaixo da inflação, o que poderia se traduzir em ventos contrários para as margens do setor, a análise aprofundada de diversas instituições financeiras revela um panorama mais complexo e com múltiplos fatores mitigadores.

Este artigo explora as perspectivas de grandes players do mercado, como XP Investimentos, Itaú BBA, Goldman Sachs e Morgan Stanley, detalhando como diferentes segmentos da indústria farmacêutica – de fabricantes a redes de drogarias – podem ser afetados, e quais estratégias e particularidades podem neutralizar ou amplificar o impacto das decisões regulatórias.

O Cenário Regulatório e os Primeiros Fatores Mitigadores

A divulgação dos fatores de reajuste pela CMED, em particular o valor do fator X, superou as expectativas para alguns analistas, projetando um ajuste que, à primeira vista, ficaria aquém da inflação esperada. No entanto, a XP Investimentos aponta para elementos capazes de suavizar esse impacto. Entre eles, destacam-se a capacidade da indústria de ajustar os descontos praticados entre o preço de referência e o valor final ao consumidor, a alavancagem operacional impulsionada pelas crescentes vendas de medicamentos da classe GLP-1 e o lançamento de versões genéricas desses produtos de alta demanda. Esses movimentos estratégicos podem conferir resiliência às margens das empresas do setor, mesmo em um ambiente regulatório mais apertado.

A Estratégia das Farmácias e a Visão Otimista do Itaú BBA

O Itaú BBA observa que o mercado demonstra menor preocupação com os efeitos de um reajuste abaixo da inflação em comparação com o ano anterior. Essa mudança de percepção é atribuída à habilidade das redes de drogarias em repassar aumentos de preços próximos à inflação, principalmente pela redução do desconto médio concedido. Isso significa que, na prática, os preços efetivamente praticados estiveram mais próximos dos tetos regulados pela CMED. Segundo estimativas do BBA, o aumento real dos preços superou o reajuste oficial da CMED em aproximadamente 50 pontos-base, podendo chegar a 100 ou 150 pontos-base ao se considerar o reflexo de cortes tributários anteriores, notadamente PIS/Cofins. Essa dinâmica tem sido crucial para sustentar a alavancagem operacional das farmácias. Contudo, o banco ressalta que a correlação entre os reajustes da CMED e as vendas em mesmas lojas (SSS) permanece relevante, o que sugere que um número mais fraco de reajuste ainda pode gerar revisões de lucro no curto prazo para essas redes.

Recomendações e Perspectivas para as Drogarias

O Itaú BBA mantém sua confiança no setor de drogarias, indicando Pague Menos (PGMN3) e Panvel (PNVL3) como suas principais escolhas. A expectativa do banco é de que o bom momento do setor se mantenha, com um quarto trimestre robusto e potencial para surpresas positivas na receita, especialmente impulsionado pelas fortes vendas de medicamentos da classe GLP-1 registradas nos últimos meses do ano. A atratividade dessas ações é reforçada por múltiplos considerados convidativos, como o lucro estimado para 2026 da Pague Menos, avaliado em cerca de 11 vezes.

Impacto em Fabricantes: Hypera e Blau sob o Olhar do Goldman Sachs

Para o Goldman Sachs, a projeção atual da CMED é mais branda do que as estimativas anteriores, principalmente devido à magnitude do fator X, que se revelou a maior desde 2021, diferentemente da expectativa de um número próximo de zero baseada no histórico recente. Dentro do universo de empresas cobertas pelo banco, Hypera (HYPE3) e Blau (BLAU3) são apontadas como as mais diretamente expostas à regulação. No caso da Hypera, cerca de 60% de seu portfólio não está sujeito aos reajustes regulatórios. Dos 40% restantes, aproximadamente metade é composta por genéricos, segmento em que a empresa tem margem para compensar reajustes menores por meio de ajustes em sua estratégia de descontos, dada a alta competitividade. Assim, o Goldman Sachs avalia que o impacto potencial sobre a receita da Hypera em 2026 tende a ser limitado. Já para a Blau, a maior parte de seu portfólio já opera abaixo dos preços-teto da CMED, o que significa que as expectativas para o reajuste regulatório terão um efeito restrito sobre a dinâmica de preços da companhia.

A Complexidade da Regulação: O Papel do Fator Z e a Análise do Morgan Stanley

O Morgan Stanley complementa a análise, explicando que o impacto do fator X pode ser mitigado, em parte, pelo fator Z. Este fator ajusta a produtividade efetiva conforme o grau de comoditização de cada classe terapêutica (ATC). Em classes altamente comoditizadas, o fator de produtividade efetivo pode ser zerado, enquanto em classes com nível intermediário, ele é equivalente a 50% do fator X. Contudo, os dados mais recentes de 2024 indicam que 58% das vendas do setor estão ligadas a ATCs classificadas pela CMED como menos comoditizadas. Isso implica que a maior parte do mercado permanece totalmente exposta ao efeito negativo mais elevado do fator de produtividade sobre os preços. O banco ressalta que, embora os reajustes da CMED se apliquem ao preço máximo regulado, eles funcionam como uma âncora crucial para a formação de preços no setor. No entanto, a diferença superior a dois pontos percentuais entre o reajuste implícito pela CMED e o comportamento efetivo dos preços observado recentemente comprova a redução de descontos e o forte impacto do mix de produtos GLP-1, fenômenos que devem persistir e continuar a mitigar parcialmente as pressões regulatórias.

Conclusão: Um Setor Resiliente em Meio à Regulação

Apesar dos reajustes de preços abaixo do esperado pela CMED representarem um desafio inicial, o setor farmacêutico demonstra estratégias e características intrínsecas que podem amortecer significativamente o impacto nas margens e nos resultados das empresas. A capacidade das drogarias de ajustar descontos, a alavancagem operacional proveniente de novas classes de medicamentos como os GLP-1, e a diversidade de portfólio de grandes fabricantes são fatores cruciais para essa resiliência.

A análise dos especialistas sublinha que o verdadeiro impacto vai além do número isolado do reajuste, exigindo uma compreensão aprofundada das dinâmicas específicas de cada segmento e empresa. Assim, enquanto a CMED estabelece o teto, o mercado e as estratégias corporativas moldam o preço efetivo e, consequentemente, o desempenho financeiro das ações do setor, sugerindo um futuro de adaptação contínua e busca por eficiência.

Fonte: https://www.infomoney.com.br

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