A primeira noite de desfiles do Grupo Especial de São Paulo transformou o Sambódromo do Anhembi em um palco vibrante nesta sexta-feira (13), com agremiações que trouxeram à avenida temas profundos e de grande relevância social. Sob um céu limpo e arquibancadas lotadas, a festa do carnaval paulistano foi um espetáculo de diversidade, celebrando desde o protagonismo feminino e a ancestralidade até intensas lutas sociais, permeando ainda a astrologia e a espiritualidade. Todas as escolas participantes cumpriram o tempo regulamentar, finalizando suas apresentações dentro do limite de 1 hora e 10 minutos, garantindo a fluidez da celebração.
Mocidade Unida da Mooca: A Força das Mulheres Africanas na Avenida
A estreante Mocidade Unida da Mooca fez uma entrada histórica no Grupo Especial, descrevendo seu desfile como um “delírio” e um “sonho se tornando realidade”. Com o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, a escola da zona leste mergulhou nas sociedades tradicionais africanas, prestando uma reverência às mulheres que são guardiãs da sabedoria e do equilíbrio, sustentando suas comunidades com força espiritual, intelectual e cultural. Um dos momentos mais impactantes foi a representação do Orixá Exu, que, pela primeira vez na avenida, foi interpretado por uma mulher, simbolizando a quebra de paradigmas e a exaltação das origens afro-brasileiras, incluindo homenagens às Yabás, os Orixás femininos. A presença da escritora Conceição Evaristo, que desfilou pela escola, sublinhou a profundidade do tema: “O carnaval é uma aula pública e dar essa aula falando do Gèlèdés e de Sueli Carneiro, é estar representando mulheres negras”, afirmou.
Colorado do Brás: O Ressignificado da Bruxa como Símbolo de Sabedoria
A Colorado do Brás, com seu enredo “A Bruxa Está Solta! Senhoras do Saber Renascem na Colorado”, propôs uma ressignificação da figura da ‘bruxa’. Longe do estereótipo pejorativo, a agremiação celebrou-a como um ícone de sabedoria ancestral, resistência, protagonismo feminino e conexão profunda com a natureza. O abre-alas impactou ao denunciar a tortura e o silenciamento de mulheres, enquanto as alas seguintes, visualmente deslumbrantes, mergulharam em um universo de misticismo, magia, cura e espiritualidade, ditando o tom do desfile. Além de exaltar o saber feminino, a escola trouxe para a avenida figuras icônicas da cultura popular, como a Bruxa do 71, a Cuca e Úrsula, a vilã de A Pequena Sereia, em um carro alegórico dedicado a elas. A atriz Fabi Bang abrilhantou o desfile caracterizada como Glinda, da versão brasileira do musical Wicked.
Dragões da Real: As Guerreiras Amazônicas em Uma Jornada Visual
A Dragões da Real apresentou o primeiro enredo de temática indígena de sua história, “Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência”, inspirado nas lendárias guerreiras da Amazônia. Com carros alegóricos de grande impacto visual, alguns exibindo efeitos de movimento, luz e fumaça, como o imponente dragão de 12 metros que marcou o abre-alas, a escola apostou em uma narrativa poderosa. Alegorias detalhadas, inspiradas na rica fauna e flora amazônicas, atravessaram a avenida, complementando o enredo. Ao longo da apresentação, a Dragões da Real teceu um discurso sobre coragem, liberdade e protagonismo feminino, prestando uma vibrante homenagem à ancestralidade e à força inabalável dos povos originários. Márcio Santana, Diretor-Geral de Carnaval, expressou profunda emoção, classificando a performance como uma das maiores da história da agremiação.
Acadêmicos do Tatuapé: O Debate Social da Reforma Agrária no Anhembi
A Acadêmicos do Tatuapé transformou o chão do Anhembi em um fértil campo de debate social com o enredo “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra!”. A escola abordou a crucial luta pela reforma agrária e pela dignidade do trabalhador rural em um desfile que mesclou tom político e poético. Suas alegorias exaltaram o campo, a coletividade e a esperança, conectando a mitologia à produção agrícola através da representação do Deus Tupã no abre-alas. Alas subsequentes representaram elementos essenciais da agricultura brasileira, como milho, café e algodão, além de animais importantes para o ecossistema agrícola, como abelhas e joaninhas, evidenciando a riqueza e a complexidade do tema. Eduardo dos Santos, um dos presidentes da escola, manifestou satisfação com a paixão e o engajamento dos componentes, que cantaram o samba-enredo com grande intensidade.
A primeira noite do Carnaval de São Paulo foi, portanto, um marco de celebração cultural e engajamento temático. As escolas não apenas encantaram com a beleza e a grandiosidade de suas alegorias e fantasias, mas também provocaram reflexão, trazendo para a maior festa popular do país discussões vitais sobre equidade de gênero, valorização das raízes africanas e indígenas, e a urgência de questões sociais. A jornada de criatividade e significado continua, prometendo mais emoções e mensagens potentes nas próximas noites.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

