O Fôlego da Economia Chinesa: Desafios Internos e os Efeitos Globais para o Brasil

Enquanto o Brasil celebra o Carnaval, a China adentra o Ano do Cavalo de Fogo em um momento de profunda reflexão econômica. A segunda maior economia do mundo, motor crucial do comércio global, enfrenta questionamentos significativos sobre a sustentabilidade de seu crescimento. Especialistas ao redor do globo analisam os dilemas de Pequim: apesar de um crescimento anual de 5% no ano passado, o país lida com um persistente desequilíbrio entre oferta e demanda interna, gerando pressões deflacionárias que reverberam por mercados internacionais. Esse cenário complexo não apenas molda a trajetória da economia chinesa, mas também impõe desafios e exige adaptações estratégicas do Brasil.

A Economia Chinesa: Desequilíbrio entre Oferta e Demanda

Apesar de ter atingido a meta governamental de crescimento em 2023, a China se depara com um problema estrutural de superprodução industrial e uma demanda interna insuficiente. Em janeiro, o índice de preços ao produtor registrou um recuo pelo 40º mês consecutivo, um claro indicador de que a indústria chinesa opera com capacidade ociosa. Em contraste, o índice de preços ao consumidor teve um aumento marginal de apenas 0,2% na comparação anual no mesmo período, acompanhado por um ritmo de crescimento das vendas no varejo que é o mais lento desde a pandemia de Covid-19 em 2020. Estes dados ilustram a fragilidade do consumo doméstico e a urgência do governo chinês em implementar medidas para fortalecer a demanda interna e reequilibrar sua economia.

O Dilema Imobiliário: Estabilização sem Retomada Efetiva

O setor imobiliário, historicamente um pilar do crescimento chinês, tornou-se um ponto de atenção crítica. Embora pacotes agressivos de estímulo governamental tenham sido bem-sucedidos em mitigar o risco de um colapso sistêmico, a retomada efetiva ainda é uma miragem. Lucas Sigu Souza, sócio-fundador da Ciano Investimentos, aponta que o plano estatal reduziu significativamente o perigo de uma quebra no setor, evitando um efeito cascata que poderia desestabilizar o mercado global. Contudo, a estabilização não se traduz em um novo ciclo de expansão. Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, observa que o modelo de crescimento baseado na expansão imobiliária mostra sinais de esgotamento, com uma estabilização marginal, mas sem uma retomada cíclica.

Os números reforçam essa perspectiva: João Pedro Moreno, analista da Nexgen Capital, destaca uma queda de 17,2% no investimento imobiliário e a existência de aproximadamente 80 milhões de imóveis não vendidos que continuam a pressionar o mercado. As vendas de imóveis novos atingiram os níveis mais baixos em mais de 15 anos, e os preços de apartamentos usados despencaram. Essa desvalorização tem levado milhões de famílias a reduzir seus gastos, impactando o consumo. Além disso, governos locais, que dependiam fortemente da arrecadação ligada ao setor imobiliário, enfrentam agora dificuldades para honrar seus compromissos, evidenciando a profundidade do desafio.

A Estratégia de Exportação: Deflação para o Mundo

Com o consumo interno das famílias chinesas ainda fraco – cerca de 20 pontos percentuais abaixo da média global –, a indústria chinesa tem canalizado seu excedente de produção para os mercados internacionais. Essa estratégia resulta na 'exportação de deflação', como explica João Pedro Moreno. Ao despejar produtos em grande volume e a preços competitivos no mercado global, a China exerce uma pressão de baixa sobre os preços internacionais, influenciando cadeias de suprimentos e setores produtivos em diversas economias ao redor do mundo.

Reflexos no Brasil: Impactos Assimétricos e Cenários Diversos

Indústria e Consumidor Brasileiro

O fenômeno da 'exportação de deflação' chinesa gera um efeito assimétrico para a economia brasileira. Marianna Costa detalha que setores da indústria nacional, como siderurgia e metalurgia, enfrentam maior concorrência devido à entrada de produtos chineses mais baratos. Por outro lado, a importação de insumos a preços reduzidos tem um efeito desinflacionário sobre bens comercializáveis no Brasil, o que pode beneficiar o consumidor final em algumas categorias de produtos.

O Futuro das Commodities Brasileiras

Para as grandes empresas brasileiras de commodities, o cenário chinês de 2026 exige cautela e uma revisão estratégica. No setor de mineração, a demanda mais moderada da construção civil chinesa deve manter os preços sob pressão. Moreno reitera que a crise imobiliária limita a necessidade de aço e minério de ferro, gerando uma tendência de baixa nos valores dessas commodities. No entanto, Lucas Sigu Souza oferece uma perspectiva mais otimista, impulsionada pela transição energética. Ele argumenta que, mesmo que a construção civil não cresça, a expansão das indústrias de carros elétricos e infraestrutura tecnológica demandará minério e aço. Para Souza, o faturamento da Vale (VALE3) com a China pode não subir expressivamente, mas a demanda, embora migre de setor, não desaparece, mitigando o risco de uma queda abrupta no faturamento se o PIB chinês mantiver crescimento.

No agronegócio, a relação comercial com a China, tradicionalmente robusta, pode se tornar mais tensa. Embora a demanda por alimentos seja historicamente resiliente, a China, na posição de um monopsonista (comprador dominante), tende a utilizar seu poder para negociar preços mais baixos, pressionando as margens dos produtores brasileiros.

Conclusão: Adaptando-se ao Novo Ciclo Chinês

A China, ao entrar em um novo ano sob o signo do Cavalo de Fogo, está claramente em uma fase de transição econômica. Os esforços para reequilibrar sua economia, movendo-se de um modelo de investimento e exportação para um de maior consumo interno, são cruciais, mas complexos e demorados. As ondas deflacionárias e as mudanças na demanda por setores específicos terão um impacto global, e o Brasil, como um dos principais parceiros comerciais de Pequim, deve estar preparado para navegar por essa nova dinâmica. A capacidade de adaptação da indústria, do setor de commodities e do governo brasileiro será fundamental para transformar desafios em oportunidades em um cenário econômico mundial em constante evolução.

Fonte: https://www.infomoney.com.br

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