A principal entidade de classe dos procuradores da República, a Associação Nacional dos Membros do Ministério Público Federal (ANMPF), solicitou formalmente ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), para ingressar como 'amigo da Corte'. A intervenção visa influenciar uma ação que questiona a legalidade de benefícios adicionais, popularmente conhecidos como 'penduricalhos', que frequentemente elevam os salários do funcionalismo público a patamares significativamente acima do teto constitucional, atualmente fixado em R$ 46,3 mil, pago aos próprios ministros do STF.
A Posição da ANMPF: Preocupação com a Segurança Jurídica
Em um documento de seis páginas, a ANMPF argumenta que a controvérsia gerada pela revisão de tais verbas transcende os interesses das partes originalmente envolvidas, alcançando uma repercussão social e institucional de 'grande magnitude'. A entidade sustenta que a medida do STF ameaça a segurança jurídica, a previsibilidade e a estabilidade do regime remuneratório de uma carreira de Estado que consideram essencial para o funcionamento da função jurisdicional. A discussão, para os procuradores, impacta diretamente a estrutura que sustenta suas garantias profissionais.
A Liminar de Dino e a Crítica aos 'Penduricalhos'
A ação em questão foi impulsionada por uma decisão liminar do ministro Flávio Dino, que concedeu um prazo de 60 dias para que os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, em todas as esferas da federação, incluindo o Ministério Público, revisem atos normativos e pagamentos. O objetivo é desmantelar expedientes e 'artimanhas', muitas vezes amparadas em regimentos internos, que inflacionam contracheques para além dos limites legais.
Dino expressou duras críticas ao cenário atual, classificando a situação dos contracheques milionários no funcionalismo público como uma 'violação massiva' da Constituição. O ministro defendeu que o fim desses benefícios é crucial para a 'justiça remuneratória', a valorização dos servidores e a eficiência e dignidade do serviço público, vislumbrando um 'fim do Império dos Penduricalhos' mais eficaz e rápido por este caminho.
Expansão do Alcance da Controvérsia Judicial
A Reclamação que deu origem à discussão foi ajuizada no STF para questionar uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) sobre a aplicação do subteto remuneratório aos honorários de sucumbência de procuradores municipais de Praia Grande. Contudo, a decisão liminar de Dino redefiniu e expandiu o escopo da discussão, passando a afetar diretamente o regime remuneratório dos membros do Ministério Público, especialmente no que tange à natureza e ao pagamento de verbas indenizatórias. Entre os benefícios citados, destaca-se a 'licença-compensatória', já presente em contracheques da magistratura e do próprio Ministério Público.
A ANMPF ressalta que essa expansão da matéria em debate trouxe para o centro da discussão a própria estrutura remuneratória de seus membros, cuja disciplina está prevista na Constituição Federal, na Lei Orgânica Nacional do Ministério Público e em resoluções do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
Justificativa do Pedido de Amicus Curiae
A associação dos procuradores alega que a discussão sobre quais verbas se incluem ou não no teto remuneratório constitucional é de 'extrema relevância e pertinência temática' para a carreira. Eles pretendem contribuir para o debate com subsídios técnicos e jurídicos específicos sobre o Ministério Público Federal, buscando demonstrar a 'legalidade e constitucionalidade das verbas' que compõem a remuneração de seus associados. A estratégia de buscar o status de 'amigo da Corte' já foi adotada por desembargadores, indicando uma união de setores do funcionalismo público em defesa de suas estruturas remuneratórias.
Impacto e Perspectivas para a Decisão Final
A decisão final a ser proferida nesta Reclamação tem o potencial de impactar diretamente as garantias e a estrutura remuneratória de milhares de membros do Ministério Público e de outras carreiras de Estado. O STF terá a tarefa de equilibrar a busca por uma maior equidade remuneratória e a observância do teto constitucional com a necessidade de preservar a estabilidade e a segurança jurídica de categorias essenciais. Este embate delineará os contornos da remuneração no serviço público brasileiro e a interpretação sobre os limites da autonomia regulatória dos órgãos frente aos princípios constitucionais.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

