Ambev: Analistas Projetam Cenário de Cautela e Poucas Surpresas Positivas para o 4º Trimestre

A Ambev (ABEV3) está se preparando para divulgar os resultados do quarto trimestre, e o mercado financeiro, representado por grandes casas de análise como Goldman Sachs, Itaú BBA, Bradesco BBI e XP Investimentos, demonstra um consenso de cautela. As expectativas apontam para um período desafiador, com pouco espaço para surpresas positivas, impulsionado por um cenário macroeconômico desfavorável, dados setoriais mornos e preocupações persistentes com o crescimento e a precificação dos ativos da companhia no médio prazo.

O Cenário do Setor de Bebidas no Brasil: Sinais de Alerta

Os dados recentes do setor de bebidas no Brasil corroboram a visão de um trimestre com volumes de cerveja em queda para a Ambev. O Índice de Produção Industrial (PIM) do IBGE registrou um recuo de 5% na comparação anual em dezembro, sinalizando uma desaceleração geral. Observações sobre concorrentes também reforçam essa tendência: o Grupo Petrópolis, focado em valor, praticamente dobrou seus preços em dezembro na base mensal, resultando em uma acentuada queda de 22% nos volumes anuais. Em contraste, a engarrafadora Coca-Cola Andina reportou uma demanda de refrigerantes em dois dígitos no mesmo mês, beneficiada por melhores condições climáticas, evidenciando uma possível distinção na performance entre categorias de bebidas.

Análise de Goldman Sachs e Itaú BBA: Expectativas e Recomendações

O Goldman Sachs avalia que o mercado já precificou uma retração de 3% a 4% nos volumes de cerveja da Ambev no Brasil, com risco limitado para as projeções de volume. Embora haja um potencial de surpresa positiva vindo de preços ou comentários futuros sobre o custo de caixa dos produtos vendidos (cash COGS) para 2026, o banco não vê uma assimetria significativa antes da divulgação. Mantendo sua recomendação de venda com preço-alvo de R$ 11,30, o Goldman Sachs salienta um descompasso entre o valuation e o potencial de crescimento da empresa no médio prazo.

Por sua vez, o Itaú BBA projeta resultados modestos para a Ambev no 4T23, apesar de uma dinâmica de volumes no segmento Cerveja Brasil que se mostrou ligeiramente melhor que o inicialmente temido, com uma queda esperada de 3% ano a ano – no topo do consenso que varia entre -3% e -5%. O banco estima um EBITDA consolidado de R$ 8,4 bilhões, alinhado com a percepção atual do mercado. Fatores como tendências macroeconômicas adversas e condições climáticas desfavoráveis no Brasil já eram esperados e devem apresentar melhoria em 2026. As operações internacionais, segundo o Itaú BBA, devem ter um 4T23 sem grandes intercorrências. A cautela dos investidores locais em relação ao múltiplo Preço/Lucro (P/L) de aproximadamente 15 vezes para 2026, com incertezas provenientes dos fluxos de capital estrangeiro, sustenta a recomendação neutra do banco, com preço-alvo de R$ 14.

Bradesco BBI e XP Investimentos: Focos em Margens e Fatores Operacionais

O Bradesco BBI expressa cautela quanto aos lucros de 2026 da Ambev. A casa de análise não está convencida de que o poder de precificação foi totalmente restabelecido no segmento Cerveja Brasil, o que pode manter as margens sob pressão. A expectativa é de um aumento de 5,7% ano a ano no custo caixa dos produtos vendidos por hectolitro (cash COGS/hl) e uma retomada no crescimento das despesas com vendas, gerais e administrativas (SG&A). Embora outras divisões possam compensar parte desses efeitos no consolidado, o potencial de alta é visto como limitado. As estimativas do Bradesco BBI para 2026 incluem um crescimento de volumes consolidados de 2,5% (com 2,6% para Cerveja Brasil), um EBITDA de R$ 30,1 bilhões (+4% ano a ano) e um lucro líquido ajustado de R$ 14,8 bilhões (+6%), sendo estas estimativas 1% e 7% abaixo do consenso, respectivamente. A avaliação relativa da ação, com um P/L de 14,8 vezes o lucro projetado para 2026 e um desconto menor em relação à AB InBev, além de um prêmio sobre cervejarias globais, reforça a recomendação neutra do Bradesco BBI, apontando valuation e momentum como potenciais ventos contrários.

Complementando o cenário, a XP Investimentos reforça que os resultados da Ambev devem continuar a ser impactados por uma combinação de menor volume de vendas, pressões de custos operacionais e as condições climáticas mais frias que persistiram ao longo do trimestre, contribuindo para o cenário de um desempenho conservador.

Perspectivas Futuras e o Peso da Valoração

O conjunto das análises revela que, para além do desempenho trimestral, a preocupação dos especialistas se estende às perspectivas de crescimento e à valoração da Ambev para os próximos anos. Com o crescimento deixando de ser o principal motor para a ação, a avaliação relativa da companhia, comparada a seus pares globais e regionais, ganha maior peso, e o momento atual não sugere um gatilho positivo para os investidores. A capacidade da Ambev de restaurar o poder de precificação e gerenciar seus custos em um ambiente desafiador será crucial para reverter o sentimento de cautela que permeia o mercado.

Fonte: https://www.infomoney.com.br

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