O cenário financeiro global tem testemunhado uma reviravolta incomum, com investidores americanos direcionando capital para o segmento mais arriscado do mercado de dívida corporativa. Em um movimento que sinaliza uma baixa preocupação com os riscos de calote, os títulos de classificação CCC – os de menor grau negociáveis nos Estados Unidos – emergiram como os protagonistas de performance nas primeiras semanas do ano, superando a maioria dos demais instrumentos de dívida do país.
Essa busca por rendimentos mais elevados, mesmo em meio a crescentes incertezas macroeconômicas, reflete uma complexa interação de fatores, desde valuations atrativos até a necessidade de capital por parte dos gestores. A tendência desafia a sabedoria convencional e redefine as estratégias de alocação de risco em um mercado em constante evolução.
O Desempenho Excepcional dos Títulos CCC
Os títulos classificados na categoria CCC, que representam o degrau mais baixo na escala de rating de crédito, registraram um impressionante ganho de 1,15% em retorno total desde o início do ano. Este desempenho não apenas se destacou sobre outras formas de dívida de alto risco, mas também contrastou fortemente com a queda de cerca de 0,2% observada nos títulos do Tesouro americano, segundo dados da Bloomberg.
Analistas apontam que parte dessa demanda se deve à percepção de que esses títulos estão historicamente baratos em comparação com o risco. Conforme o Barclays, o prêmio de risco dos títulos CCC em relação aos de nível B, imediatamente superior, sugere uma oportunidade de pechincha. Além disso, após um período em que ficaram atrás de outros papéis de alto rendimento no ano passado, com um aumento de 8,3% contra 8,9% dos títulos BB, esses ativos de maior risco estão agora compensando o terreno perdido. Sean Feeley, gestor de portfólio de títulos de alto rendimento da Barings, ressalta que as avaliações de mercado são um fator crucial para essa performance superior. A importância dos títulos CCC é ampliada pelo seu impacto desproporcional nos retornos gerais do índice de alto rendimento, compondo cerca de 12% do seu valor de mercado, mas contribuindo com aproximadamente um quarto dos spreads totais, como destaca o Barclays. Ignorá-los, segundo Michael Levitin, da MidOcean Partners, significa ficar para trás.
A Busca por Rendimento em um Cenário Global Volátil
Este aumento no apetite por risco ocorre em um período de crescente instabilidade nos mercados de títulos globais. Os rendimentos aumentaram em diversas partes do mundo, influenciados por eventos geopolíticos e propostas políticas, como a retórica do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a Groenlândia, e a promessa de corte de impostos da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, que impactou os títulos governamentais japoneses.
Nos Estados Unidos, mesmo antes dos eventos mais recentes, os títulos do Tesouro já mostravam sinais de pressão. O rendimento dos títulos de 10 anos subiu cerca de 0,25 ponto percentual desde o final de novembro, impulsionado por preocupações de que o Federal Reserve (Fed) possa ser mais lento em cortar as taxas de juros, dada a resiliência do mercado de trabalho. Esse aumento nas taxas de juros, ironicamente, tem impulsionado a demanda por títulos corporativos em geral, pois gestores de recursos, incluindo fundos de pensão e seguradoras, frequentemente buscam níveis absolutos de rendimento mais altos ao fazer suas avaliações de investimento.
O Crescente Fascínio por Papéis de Maior Risco
O influxo de capital não se limita apenas aos títulos de mais alta qualidade. No mercado primário de títulos com grau de investimento, empresas já venderam US$ 170 bilhões em dívidas corporativas, um aumento de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. Paralelamente, os spreads dos títulos corporativos americanos de alta qualidade atingiram 0,71 ponto percentual, o menor nível desde 1998, indicando a alta demanda por esses papéis.
No entanto, o interesse particular dos gestores de fundos pelos títulos de alto risco nos EUA é notável. Além dos ganhos no mercado secundário, o mês de janeiro testemunhou seis novas emissões de títulos de nível CCC, totalizando US$ 3,5 bilhões. Isso representa aproximadamente 15% da oferta total de títulos de alto rendimento no período, uma proporção significativamente maior em comparação com as duas emissões de US$ 630 milhões (cerca de 3% do total) no primeiro mês do ano passado. Essa preferência, segundo Michael Levitin da MidOcean, é impulsionada pela busca por rendimento, pela necessidade de ativos e pela disponibilidade de liquidez.
Desafios e a Importância da Seleção de Crédito
Apesar do entusiasmo, o mercado de títulos de dívida corporativa de alto rendimento é complexo e exige discernimento. Corry Short, estrategista do Barclays, observa que o mercado está dividido entre títulos de melhor desempenho, negociados a valuations relativamente caros, e títulos com maior risco de inadimplência, que são precificados com descontos substanciais. Essa dispersão de preços dentro do segmento CCC torna a análise de dados e a seleção de crédito mais rigorosas do que nunca, sendo fundamental para identificar o valor relativo.
Investidores estão, de fato, diferenciando entre empresas com crescimento robusto e aquelas com perspectivas mais limitadas. Corporações com trajetórias de crescimento sólidas muitas vezes exibem perfis de ações igualmente fortes, como aponta Scott Hague, chefe global de financiamento alavancado e crédito privado da TD Securities. Em um ambiente como o atual, não é incomum ver os spreads para créditos mais sólidos se comprimirem a níveis que normalmente seriam reservados para títulos com maior proteção ou características específicas, empurrando os investidores para ativos de maior risco na busca por retornos mais atrativos.
Conclusão: Um Equilíbrio Delicado entre Risco e Recompensa
A robusta performance dos títulos CCC nas primeiras semanas do ano é um testemunho do contínuo apetite dos investidores por rendimento, mesmo em categorias de alto risco. Impulsionada por valuations atrativos, a necessidade de capturar retornos em um ambiente de taxas crescentes e a disponibilidade de capital, essa tendência reflete uma disposição para assumir riscos calculados. Contudo, a complexidade do cenário global e a dispersão de valor no próprio segmento de alto rendimento exigem uma abordagem altamente seletiva. A capacidade de distinguir entre empresas com fundamentos sólidos e aquelas com vulnerabilidades é mais crucial do que nunca, garantindo que a busca por rendimento não se transforme em uma aposta excessiva.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

