O mercado de trabalho brasileiro encerrou o último ano com um balanço de <b>1,3 milhão de novos empregos</b> formais, um crescimento aquém das expectativas e o menor patamar registrado desde o período mais crítico da pandemia. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), divulgados recentemente pelo Ministério do Trabalho, reforçam a percepção de uma economia em desaceleração, diretamente influenciada pela política de aperto monetário implementada pelo Banco Central. Este cenário, delineado pela tentativa de conter a inflação, tem como consequência um freio no consumo e nos investimentos, reverberando na capacidade das empresas de expandir e contratar.
Frenagem na Criação de Vagas: Um Sinal de Alerta
Apesar do saldo positivo, a performance de 2023 representou uma expansão de 2,71% sobre o estoque total de empregos, um índice inferior ao ano anterior, quando o país adicionou 1,7 milhão de vagas, equivalente a um crescimento de 3,69%. Essa diferença evidencia uma perda de fôlego considerável. Além da média anual, o desempenho de dezembro passado, mês tradicionalmente marcado por dispensas sazonais após as contratações temporárias de Natal, surpreendeu negativamente, ficando abaixo das projeções da maioria dos analistas e confirmando uma tendência de enfraquecimento que já vinha sendo observada.
A Conexão Direta entre Juros e Emprego
A pesquisadora Janaína Feijó, da FGV Ibre, destaca que a expectativa para o período já sinalizava uma geração de empregos mais modesta em comparação com o ano anterior. Segundo ela, embora o mercado de trabalho tenha demonstrado resiliência inicial à escalada dos juros, que chegaram a um patamar de 15% ao ano, os efeitos da política monetária se tornaram mais evidentes. Juros elevados desestimulam a contratação, pois tornam o investimento financeiro mais rentável do que a expansão via novos postos de trabalho. Além disso, um ambiente econômico retraído naturalmente leva investidores e empreendedores a adiarem planos de crescimento.
Setores em Xeque e a Dinâmica dos Indicadores
Os setores da indústria e do comércio foram os que mais contribuíram para a desaceleração observada no saldo de vagas. A indústria, em particular, já vinha apresentando um desempenho negativo há alguns meses, inicialmente associado a reajustes tarifários, mas agora claramente sob a influência das altas taxas de juros e da política externa. Feijó explica que o CAGED, ao focar em vagas formais e observar resultados mês a mês, antecipa os efeitos dos juros e da desaceleração econômica em comparação com outros indicadores, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), do IBGE, que analisa um trimestre móvel e, por isso, tende a diluir impactos mais pontuais.
Perspectivas Futuras e o Papel do Banco Central
Apesar dos sinais de desaceleração no mercado formal, a taxa de desemprego geral pode se manter em níveis relativamente baixos em divulgações futuras da PNAD Contínua, devido à metodologia de cálculo. Para o ano corrente, a expectativa é de um mercado de trabalho ainda sob a influência dos juros elevados, mas com potenciais impulsos, como os estímulos fiscais previstos para o primeiro semestre e eventos como a Copa do Mundo e as eleições. André Valério, economista sênior do Inter, reforça que os dados do CAGED se alinham com o cenário projetado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) e com a perspectiva de início de cortes nas taxas de juros já em março, com uma redução inicial esperada de 50 pontos-base. Contudo, Valério ressalta que uma intensificação da desaceleração da atividade e do emprego, juntamente com a valorização do real, pode levar o Copom a considerar cortes mais agressivos.
Em síntese, o panorama do mercado de trabalho reflete diretamente os desafios impostos pela política monetária. A desaceleração na criação de empregos é um indicativo claro de que a estratégia de combate à inflação, embora necessária, cobra seu preço na atividade econômica e na capacidade do país de gerar novas oportunidades. Acompanhar as próximas decisões do Banco Central e os indicadores econômicos será crucial para entender a trajetória de recuperação e expansão do emprego no Brasil.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

