A moeda norte-americana encerrou a terça-feira com uma valorização discreta em relação ao real, refletindo a complexidade de um cenário que mescla dados econômicos domésticos e a dinâmica global do câmbio. Após um dia de oscilações, a divisa ajustou-se à percepção de investidores sobre a inflação de janeiro no Brasil e as declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que abordaram a taxa de juros real do país. O movimento local espelhou, em parte, a força do dólar ante outras moedas de mercados emergentes.
Movimento do Dólar no Mercado Nacional e Global
Ao final da sessão, o dólar à vista registrou uma valorização de 0,17%, sendo negociado a R$ 5,1976. Apesar do fechamento em alta, o acumulado do ano ainda indica uma desvalorização de 5,31% para a moeda. No mercado futuro, o contrato mais líquido para março apresentou uma leve retração de 0,03%, cotado a R$ 5,2155 na B3. Esse comportamento foi notavelmente alinhado com a performance internacional da divisa norte-americana, que mostrou ganhos consistentes frente a pares do real, como o rand sul-africano, o peso chileno e o peso mexicano, em um dia desafiador para a maioria das economias emergentes.
IPCA de Janeiro: Impacto na Inflação e Expectativas para a Selic
Os dados de inflação divulgados pelo IBGE revelaram que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,33% em janeiro, mantendo o mesmo patamar de dezembro e ligeiramente acima da projeção de 0,32% dos economistas. No acumulado dos últimos 12 meses, a inflação atingiu 4,44%, superando os 4,26% registrados em dezembro e aproximando-se da estimativa de 4,43%. Uma análise mais detalhada mostrou uma forte desaceleração nos serviços em geral, com a taxa caindo de 0,72% em dezembro para 0,10% em janeiro. Contudo, os serviços subjacentes, que excluem itens de maior volatilidade, registraram um leve aumento de 0,56% para 0,57%, enquanto os serviços intensivos em mão de obra recuaram de 0,77% para 0,64%.
Apesar das nuances nos subgrupos, o cenário geral do IPCA não alterou as expectativas do mercado para o início do ciclo de cortes da taxa básica de juros, a Selic – atualmente em 15% ao ano – previsto para março. Permanece, no entanto, a incerteza quanto à magnitude do primeiro corte, oscilando entre 25 ou 50 pontos-base.
Debate Fiscal: Haddad Critica Juros Reais Elevados
Em um evento promovido pelo BTG Pactual, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, expressou sua preocupação com o patamar dos juros reais no Brasil, argumentando que não há justificativa para os níveis atuais. Segundo o ministro, essa taxa de juros elevada impacta diretamente o endividamento público, gerando um custo que o governo não consegue compensar, mesmo com a obtenção de superávits primários. Essa fala ressalta o embate entre a política fiscal e a monetária e a busca por um equilíbrio que promova a estabilidade econômica sem comprometer a sustentabilidade da dívida.
Tradicionalmente, o expressivo diferencial de juros entre o Brasil (com Selic a 15%) e os Estados Unidos (com taxa de referência entre 3,50% e 3,75%) tem sido um fator atrativo para investimentos estrangeiros, contribuindo para a valorização do real em meses recentes. A retórica sobre os juros, contudo, adiciona uma camada de incerteza a esse cenário, podendo influenciar as expectativas futuras para o câmbio.
Intervenção do Banco Central
No contexto da gestão da dívida externa e da liquidez do mercado cambial, o Banco Central do Brasil realizou a venda de 49.900 contratos de swap cambial. Esta operação visou a rolagem dos vencimentos de março, uma prática comum da autoridade monetária para administrar a oferta de dólares no mercado e atenuar a volatilidade.
Conclusão
A leve ascensão do dólar reflete a interação de múltiplos fatores: uma inflação que, embora controlada, mostra pontos de atenção nos serviços; a contundente crítica do Ministro da Fazenda à política de juros; e um cenário global de fortalecimento da moeda americana. A dinâmica do câmbio permanece sensível tanto às expectativas domésticas sobre a Selic quanto às condições econômicas externas, com a atuação do Banco Central adicionando um elemento de estabilização. Investidores seguem atentos a futuros indicadores e declarações que possam redefinir a trajetória da moeda.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

