Expansão de Horizontes: Como Clubes Brasileiros Intensificam a Busca por Talentos Africanos

O futebol brasileiro, tradicionalmente reconhecido como um grande exportador de talentos para mercados mais abastados da Europa, sempre buscou em sua vizinhança sul-americana a principal fonte de reforços estrangeiros. Nomes de países como Argentina, Uruguai, Colômbia e Paraguai são figuras comuns nos elencos nacionais. No entanto, um novo cenário vem se desenhando, com clubes brasileiros voltando seus olhos para um continente antes pouco explorado: a África. Essa mudança representa uma redefinição estratégica na prospecção de atletas, focada tanto nas categorias de base quanto no elenco profissional, buscando um novo perfil de jogador e antecipando-se a outros mercados.

Uma Mudança de Paradigma no Mercado Brasileiro

Historicamente, a dinâmica do futebol no Brasil se estabeleceu com a venda de suas maiores promessas para a Europa – exemplos como Neymar e Endrick ilustram essa tendência – e a aquisição de atletas de menor expressão para mercados secundários. Na contramão, a chegada de jogadores estrangeiros costumava se concentrar em países da América do Sul. A distância, o custo elevado de prospecção e a falta de familiaridade com o mercado africano mantiveram este continente à margem dos interesses brasileiros por muito tempo. Contudo, essa percepção de 'custo' vem sendo substituída pela visão de 'investimento', abrindo um novo leque de oportunidades para os clubes que buscam talentos brutos com potencial de desenvolvimento.

A Estratégia de Investimento nas Categorias de Base

O principal foco dessa nova investida em território africano reside nas categorias de base. Enquanto observar e trazer jovens talentos da América do Sul tornou-se progressivamente mais caro – muitas vezes, exigindo grandes investimentos para jogadores já consolidados ou disputados pelos europeus –, a África desponta como um celeiro de potenciais craques ainda em formação. A ideia é captar esses atletas antes que atinjam o patamar de milhões de euros e se tornem alvos diretos dos gigantes europeus, que geralmente buscam jogadores africanos já desenvolvidos em ligas menores do Velho Continente.

Dirigentes de clubes brasileiros, como Luiz Carlos, ex-gerente geral da base do Flamengo, e João Paulo Sampaio, coordenador da base do Palmeiras, corroboram essa abordagem. Eles destacam a necessidade de expandir os horizontes de observação para além das fronteiras tradicionais, citando o sucesso de jogadores africanos que, após a formação na Europa, se tornam estrelas. A lógica é simples: se a Europa se beneficia desses talentos, por que o Brasil não poderia fazer o mesmo, oferecendo uma plataforma de desenvolvimento e um trampolim para suas carreiras? O Palmeiras, inclusive, enviou olheiros para Gana, Senegal e Camarões, um movimento inédito que sinaliza a seriedade dessa nova estratégia.

Os Primeiros Frutos da Prospecção Africana

Os primeiros resultados dessa mudança de foco já começam a aparecer. Em 2023, o Flamengo contratou o nigeriano Shola para suas categorias de base, um dos pioneiros dessa nova leva. O Palmeiras inscreveu o zagueiro Koné, de 18 anos e natural da Costa do Marfim, no Campeonato Paulista de 2025, demonstrando a intenção de acelerar sua integração ao futebol profissional. O Atlético-MG, por sua vez, já conta com o meia guineense Mamady Cissé como um dos destaques de seu time sub-20, descoberto em um torneio na Nigéria. O Internacional, por sua vez, trouxe os volantes ganeses Denis Marfo e Benjamin Arhin para seu elenco sub-20 em 2025, providenciando aulas de português e moradia no CT para facilitar a adaptação. Arhin já fez sua estreia no time principal colorado, evidenciando o potencial imediato desses investimentos.

O Cenário Profissional e os Desafios Futuros

Apesar do crescente influxo de jovens africanos para as categorias de base, o número de jogadores do continente nos elencos profissionais brasileiros ainda é modesto. Em 2025, uma pesquisa indicou que apenas 19 atletas africanos estavam registrados em clubes das quatro divisões do futebol nacional, sendo meros 4 na Série A. Para contextualizar, este número é significativamente menor que o de jogadores sul-americanos, como os 45 argentinos e 27 uruguaios presentes na mesma Série A. Este dado ressalta que, embora a porta esteja se abrindo para a base, a consolidação de atletas africanos no mais alto nível do futebol brasileiro ainda é um processo gradual e em construção, com desafios de adaptação e concorrência que precisam ser superados.

Um exemplo de sucesso consolidado no cenário profissional é Bastos, do Botafogo, que não apenas atua no Brasil, mas também já conquistou a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro, mostrando que a integração pode, sim, gerar resultados expressivos. Contudo, seu caso é, por enquanto, mais uma exceção que a regra, sublinhando a jornada que ainda precisa ser percorrida para que a presença africana se torne tão marcante no profissional quanto começa a ser na formação de talentos.

Conclusão: Um Horizonte Promissor com Desafios em Perspectiva

A abertura dos clubes brasileiros ao mercado africano representa um passo significativo na diversificação da prospecção de talentos. De uma postura histórica de negligência, o futebol nacional migra para uma estratégia de investimento proativo, especialmente nas categorias de base. Este movimento não só visa preencher lacunas e encontrar joias antes dos grandes centros europeus, mas também pode enriquecer o estilo de jogo e a cultura dos clubes com a chegada de atletas de diferentes escolas. Embora a presença em elencos profissionais ainda seja limitada, a aposta na formação de jovens africanos sugere um futuro onde a paisagem do futebol brasileiro será cada vez mais globalizada e multicultural, com o continente africano desempenhando um papel fundamental nessa evolução.

Fonte: https://portalleodias.com

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