A França oficializou nesta segunda-feira a aprovação de seu orçamento para o ano corrente, um marco crucial que pavimenta o caminho para a ambiciosa expansão dos gastos militares prometida pelo presidente Emmanuel Macron. A decisão reflete uma resposta direta às crescentes ameaças geopolíticas, impulsionadas pela guerra na Ucrânia e pelos conflitos no Oriente Médio, consolidando a defesa nacional como prioridade estratégica. O processo, contudo, não foi isento de turbulências, revelando profundas divisões no cenário político francês.
O Reforço da Capacidade Militar Francesa
A luz verde orçamentária é um pilar fundamental para a agenda de segurança do presidente Macron, que visa modernizar e fortalecer as Forças Armadas francesas diante de um espectro de riscos que abrange desde a agressão russa e a proliferação nuclear até o combate ao terrorismo e a proteção contra ciberataques. Embora uma lei de emergência tenha evitado um colapso financeiro em dezembro, esta aprovação final assegura a alocação de recursos essenciais para o planejamento de longo prazo e a implementação de sua visão estratégica.
Para 2026, o Ministério da Defesa receberá um aporte significativo de 6,7 bilhões de euros adicionais em comparação com o ano anterior, demonstrando um claro compromisso com a prioridade militar. Este investimento substancial financiará a entrega de um novo submarino nuclear de última geração, a aquisição de 362 veículos blindados para renovar a frota terrestre e a incorporação de novos mísseis Aster. Adicionalmente, o plano contempla o lançamento de um serviço militar voluntário, destinado a jovens com idades entre 18 e 19 anos, visando reforçar o engajamento cívico e a preparação militar da juventude.
A Batalha Política pela Aprovação Orçamentária
A jornada até a aprovação deste orçamento foi marcada por um cenário parlamentar particularmente fragmentado e polarizado. Após meses de impasses e debates infrutíferos, o governo viu-se obrigado a recorrer ao Artigo 49.3 da Constituição, uma medida extraordinária que permite a aprovação de um texto sem votação no Parlamento. Esta manobra, utilizada pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu, sublinhou a incapacidade das bancadas de chegar a um consenso e gerou forte oposição.
Como consequência direta do uso do Artigo 49.3, o governo enfrentou a expectativa de duas moções de censura no mesmo dia da aprovação. Embora a sobrevivência do gabinete de Lecornu seja provável, o episódio evidenciou as profundas fissuras políticas e a dificuldade em construir maiorias no atual panorama legislativo francês, refletindo um período de intensa negociação e concessões para garantir a governabilidade.
Desafios Fiscais e Concessões Políticas
Em paralelo ao esforço de modernização militar, o governo francês está empenhado em uma rigorosa política fiscal para reduzir o déficit público. A meta é diminuir o indicador para 5% do Produto Interno Bruto (PIB), uma queda em relação aos 5,4% projetados para 2025, atendendo às pressões da União Europeia e das agências de rating internacionais. O déficit estatal, no entanto, ainda é estimado em expressivos 131,9 bilhões de euros, indicando a magnitude do desafio financeiro.
Para financiar parte dos gastos e equilibrar as contas, medidas de austeridade foram combinadas com aumento de receita. Empresas com grandes lucros enfrentarão uma taxa extra, projetada para arrecadar 7,3 bilhões de euros em 2026. No plano político, e na ausência de uma maioria parlamentar sólida, o governo de Lecornu buscou apoio dos socialistas, concedendo, entre outras medidas, a suspensão da impopular reforma da Previdência, que previa o aumento da idade de aposentadoria, uma decisão que demonstra a complexidade da gestão governamental em um congresso dividido.
A aprovação deste orçamento, apesar de todo o entrave político e das delicadas concessões fiscais, solidifica a virada estratégica da França em direção a um maior investimento em defesa. O movimento coaduna com a recente ênfase do presidente Macron em questões de política externa, como as garantias de segurança à Ucrânia e o fortalecimento da defesa europeia, consolidando sua projeção internacional. Em seu último ano de mandato, Macron parece focar seus esforços em legados de segurança e diplomacia, mesmo diante dos desafios domésticos e da reconfiguração de alianças globais.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

