A era da Inteligência Artificial (IA) promete redefinir paisagens econômicas globais, mas um novo estudo do Banco de Compensações Internacionais (BIS) levanta um alerta crucial: a tecnologia pode, no curto e longo prazo, acentuar as diferenças entre economias emergentes e avançadas. A análise detalhada do BIS aponta que a capacidade de absorção e aproveitamento dos benefícios da IA varia significativamente entre os países, com nações desenvolvidas geralmente em melhor posição para colher ganhos imediatos, enquanto economias emergentes, como o Brasil, enfrentam uma heterogeneidade considerável em seu preparo.
A Complexa Tradução da Produtividade da IA em Ganhos Macroeconômicos
As inovações em IA generativa demonstram um potencial expressivo para otimizar tarefas específicas, com aumentos de produtividade que variam entre 10% e 65% em áreas como programação, consultoria e redação profissional. Contudo, o relatório do BIS destaca a incerteza quanto à tradução desses incrementos pontuais em um impacto significativo na produtividade total no nível macroeconômico. As projeções para o crescimento anual da produtividade oscilam drasticamente, de um modesto 0,07% a um mais otimista 0,9 ponto percentual. Essa amplitude reflete a complexidade da interação de diversos fatores, incluindo a forma como os recursos são realocados entre os setores, a eficiência na gestão de capital e trabalho, e a velocidade com que as novas tecnologias são efetivamente integradas e adotadas pelas empresas e pela sociedade.
Estrutura Produtiva: O Limite para a Aceleração da IA em Economias Emergentes
Um dos principais motores da disparidade na adoção e nos ganhos da IA reside na composição estrutural das economias. Países avançados, com sua forte concentração em setores como finanças, educação e tecnologia da informação, possuem uma exposição naturalmente maior às aplicações da IA. Esses segmentos são intensivos em tarefas cognitivas e informacionais, ideais para as soluções de inteligência artificial. Em contraste, muitas economias emergentes ainda dependem significativamente de setores como agricultura, transporte e construção, que, embora essenciais, apresentam um potencial de aplicação imediata da IA generativa consideravelmente menor. Essa diferença fundamental na estrutura produtiva atua como um obstáculo, limitando o potencial de ganhos de produtividade de curto prazo para grande parte do mundo em desenvolvimento.
Desafios no Mercado de Trabalho Global: Automação e Vulnerabilidade
O impacto da IA no mercado de trabalho representa outra frente de incerteza, especialmente para as economias emergentes. O estudo do BIS aponta que essas nações tendem a ter uma parcela maior de sua força de trabalho em ocupações cognitivas de baixa qualificação e funções administrativas, muitas das quais são particularmente suscetíveis à automação. Embora o documento mencione evidências iniciais de efeitos negativos em segmentos como call centers e serviços de terceirização de processos de negócios em países como Índia e Filipinas, ele também ressalta que os ajustes no emprego geralmente ocorrem de forma gradual. Isso permite que as empresas reestruturem seus processos operacionais após consolidar os ganhos de eficiência proporcionados pela IA, moderando o choque inicial no mercado de trabalho.
Ampliação da Lacuna: Os Riscos da Desigualdade em um Horizonte Temporal Mais Amplo
Olhando para o longo prazo, as consequências da falta de preparo podem ser ainda mais acentuadas. O BIS adverte que, se as lacunas de prontidão na adoção da IA persistirem, a diferença econômica entre os blocos de países pode se ampliar significativamente. Simulações apresentadas no relatório ilustram esse cenário: um aumento sustentado de 0,5% ao ano na produtividade, impulsionado pela IA ao longo de uma década, resultaria em um Produto Interno Bruto (PIB) real médio das economias avançadas mais de dois pontos percentuais superior ao das emergentes. Por outro lado, o estudo também oferece uma perspectiva de mitigação: um cenário de convergência parcial, onde a diferença de prontidão em relação aos Estados Unidos fosse reduzida pela metade, poderia conter o diferencial de crescimento entre os grupos para menos de um ponto percentual, indicando que a ação estratégica pode moldar o futuro.
Diante do cenário delineado, o BIS é enfático ao sublinhar a importância de investimentos estratégicos. Para que as economias emergentes consigam transcender as barreiras atuais e realmente capitalizar os vastos benefícios da IA, é fundamental priorizar a infraestrutura digital robusta, a qualificação contínua da força de trabalho para as novas demandas tecnológicas e o fortalecimento de suas instituições. Somente por meio dessas ações coordenadas será possível não apenas ampliar os ganhos com a inteligência artificial, mas também evitar que a tecnologia se torne um fator de aprofundamento das desigualdades globais, pavimentando o caminho para uma redução substancial da diferença de renda em relação às economias mais desenvolvidas.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

