Em um cenário econômico onde os lucros corporativos do último trimestre surpreenderam positivamente, superando as expectativas, um fator inesperado dominou as discussões entre executivos e investidores: o receio da inteligência artificial. A ameaça de disrupção impulsionada pela IA não apenas desviou o foco das conquistas financeiras, mas também provocou uma reação imediata e, por vezes, drástica nos mercados, evidenciando uma profunda incerteza sobre o futuro de diversos setores.
A Ascensão da IA nas Teleconferências e a Reação Impulsiva dos Investidores
A preocupação com a inteligência artificial manifestou-se de forma contundente nas teleconferências de resultados. Uma análise detalhada das transcrições pela Bloomberg News revelou que as menções à disrupção causada pela IA quase dobraram em comparação com o trimestre anterior. Embora a tecnologia ainda não tenha materializado um impacto negativo significativo nas estimativas de lucros da maioria das companhias, o mercado financeiro demonstrou não estar disposto a esperar, optando por uma postura proativa de desinvestimento. Investidores têm vendido ações de empresas consideradas vulneráveis, mesmo na ausência de evidências concretas de perdas imediatas.
Um exemplo marcante dessa tendência foi a empresa de imóveis comerciais CBRE Group. Apesar de ter divulgado resultados financeiros que superaram as expectativas, comentários de seu diretor executivo durante a teleconferência pós-balanço, sugerindo que a IA poderia reduzir a demanda por espaços de escritório no longo prazo, desencadearam uma queda de 20% nas ações da companhia em apenas dois dias. Essa dinâmica ilustra a máxima de que 'os mercados agem primeiro e perguntam depois', conforme observou Roberto Scholtes, chefe de estratégia do Singular Bank, indicando que o ônus da prova recai agora sobre as empresas, que precisam demonstrar resiliência à IA para evitar desvalorizações.
O Paradoxo: Lucros Crescentes Contrastando com um Mercado Estagnado
Apesar do temor da IA, os resultados do quarto trimestre para as empresas do S&P 500 foram notavelmente fortes. Os lucros aumentaram impressionantes 12% em relação ao ano anterior, superando as projeções iniciais de 8,4%. Além disso, mais de 75% das companhias superaram as expectativas de lucros, um índice acima da média histórica, segundo dados da Bloomberg Intelligence. Esse desempenho robusto, no entanto, não se traduziu em ganhos para o mercado de ações em geral.
O índice S&P 500, que serve como um barômetro da economia, permaneceu estagnado, oscilando em uma faixa limitada desde setembro. Essa paralisação foi impulsionada, primeiramente, pela preocupação dos investidores com o excesso de gastos das grandes empresas de tecnologia em IA e, mais recentemente, pelo receio de que a própria tecnologia possa erodir os lucros corporativos. A ansiedade em torno da IA criou um freio para o otimismo que, naturalmente, acompanharia um trimestre de forte crescimento.
Setores na Mira e os Novos Vencedores da Era Digital
A busca por potenciais vencedores e perdedores da inteligência artificial tem sido uma constante global ao longo do último ano. Inicialmente, setores como mídia, software e recrutamento foram os primeiros a sentir o impacto, considerados os mais suscetíveis à disrupção. Contudo, essa tendência se ampliou rapidamente, e, especialmente nas últimas semanas, a preocupação se estendeu para empresas dos setores financeiro, de serviços profissionais e até mesmo de logística, demonstrando a vasta abrangência da ameaça percebida.
As carteiras de ações consideradas em risco pela inteligência artificial, compiladas pelo UBS Group AG, registraram quedas substanciais de 40% a 50% no último ano. Nos Estados Unidos, empresas como Salesforce, Unity e ServiceNow estão entre as mais afetadas, enquanto na Europa, nomes como London Stock Exchange Group, WPP, Wolters Kluwer e Capgemini sentem o peso dessa nova realidade. Essa vulnerabilidade do digital é resumida pelo gestor de fundos Jean-Edwin Rhea, da Sunny Asset Management: 'Se é digital, é vulnerável. Do ponto de vista do mercado de ações, o mundo físico oferece mais certeza a curto prazo do que o espaço digital'.
Em contraste, na Ásia, os principais índices alcançaram novos recordes, impulsionados por empresas que são fundamentais para o desenvolvimento da infraestrutura de IA, como a Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC) e a SK Hynix. Essas companhias, fornecedoras essenciais de ferramentas e componentes para a inteligência artificial, emergem como os verdadeiros vencedores neste estágio da corrida tecnológica, demonstrando que o impacto da IA é polarizado, criando tanto riscos quanto oportunidades de crescimento.
Estratégias de Adaptação e a Busca por Resiliência no Cenário Pós-IA
Diante da crescente ansiedade do mercado, executivos corporativos têm intensificado os esforços para reorientar a narrativa, enfatizando os benefícios e as aplicações estratégicas da IA em seus negócios, em vez de focar apenas nas ameaças. A Expedia Group, por exemplo, tem destacado o uso da IA no desenvolvimento de novos produtos, enquanto a RELX, proprietária dos bancos de dados jurídicos e de notícias LexisNexis, ressaltou suas ferramentas de IA que auxiliam clientes na extração e análise de informações. A Zillow Group, por sua vez, argumenta que o mercado imobiliário residencial, com sua natureza profundamente local, é inerentemente mais resistente à disrupção da IA.
Apesar do pessimismo generalizado, muitos analistas de Wall Street sugerem que a onda de vendas pode ter ido longe demais, o que levou a uma recuperação notável de algumas ações neste mês. Contudo, a cautela persiste, com investidores apostando na queda de determinadas empresas, especialmente na Europa. O interesse crescente em posições vendidas em componentes de uma cesta de ações europeias da UBS, consideradas as mais vulneráveis à disrupção da IA, indica que a vigilância e a aposta contra certas empresas ainda são estratégias ativas no mercado financeiro global.
Conclusão: O Equilíbrio Delicado entre Inovação e Incerteza
A inteligência artificial, embora promissora, introduziu uma camada de complexidade e incerteza sem precedentes nos mercados financeiros. A tensão entre um desempenho de lucros robusto e o medo da disrupção tecnológica é um testemunho da profunda transformação que a IA está provocando. Enquanto algumas empresas buscam capitalizar suas aplicações e outras tentam minimizar os riscos, o mercado permanece em um estado de avaliação constante, exigindo que as companhias provem sua capacidade de prosperar em um futuro cada vez mais digitalizado. A grande questão que paira é se a inovação da IA pavimentará o caminho para um novo ciclo de crescimento ou se continuará a ser uma força desestabilizadora, moldando permanentemente as estratégias de investimento e o cenário corporativo global.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

