A Polícia Federal (PF) deu início, nesta segunda-feira (26), à fase de oitivas da Operação Compliance Zero, que mira possíveis irregularidades na tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). Oito indivíduos, entre diretores, empresários e ex-executivos de ambas as instituições, estão agendados para depor até terça-feira (27), por videoconferência ou na sede do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação apura um complexo esquema de manipulação de ativos e vendas de carteiras de crédito supostamente fraudulentas, que somam cifras bilionárias e abalaram a confiança no setor financeiro.
Foco da Operação: Irregularidades e Mecanismos da Fraude
Os interrogatórios da PF buscam esclarecer as dimensões da alegada fraude, que envolve a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consideradas falsas ao BRB. Além disso, a apuração se concentra em uma rede de fundos e ativos que teriam sido artificialmente inflados, totalizando mais R$ 11,5 bilhões, com o suposto envolvimento da gestora Reag DTVM, conforme apontamentos do Banco Central (BC). As oitivas, programadas para ocorrer das 8h às 16h, são cruciais para desvendar como tais operações teriam sido orquestradas e quais seriam seus beneficiários.
Os Investigados Convocados pela PF
Entre os depoentes que comparecerão à Polícia Federal estão figuras estratégicas de ambas as instituições e do mercado. A lista inclui Dário Oswaldo Garcia Junior, diretor de Finanças e Controladoria do BRB; André Felipe de Oliveira Seixas Maia e Henrique Souza e Silva, ambos empresários; Alberto Felix de Oliveira, superintendente de Tesouraria do Banco Master; Robério Cesar Bonfim Mangueira, superintendente do BRB; Luiz Antonio Bull e Angelo Antonio Ribeiro da Silva, executivos do Banco Master; e Augusto Ferreira Lima, ex-executivo da mesma instituição.
A Proposta de Aquisição e o Veto do Banco Central
A origem desta complexa investigação remonta a 28 de março de 2025, quando o Banco de Brasília anunciou publicamente sua intenção de adquirir o Banco Master, com a ambiciosa meta de criar um novo conglomerado financeiro sob controle estatal. Contudo, a proposta rapidamente gerou controvérsias significativas. Dúvidas sobre a real qualidade e solidez dos ativos do Banco Master surgiram no mercado, culminando na reprovação do negócio pelo Banco Central em 3 de setembro do mesmo ano. A decisão do BC serviu como catalisador para aprofundar as apurações sobre as práticas financeiras do Banco Master.
Estratégias de Inflação de Balanço e a Ilusão de Solidez
As investigações subsequentes revelaram uma estrutura de operações financeiras que, segundo as autoridades, eram irregulares, fraudulentas ou enganosas. O Banco Master havia apresentado um crescimento exponencial nos últimos anos, em parte, ao emitir Certificados de Depósito Bancário (CDBs) que prometiam retornos acima da média de mercado, utilizando a garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como atrativo. No entanto, o balanço da instituição demonstrava que os ativos eram inflados artificialmente, seja por meio de fundos com suspeitas de “turbinagem” ou por créditos consignados de aparente fragilidade, enquanto os passivos se mostravam substancialmente maiores. O objetivo dessas manobras seria artificializar a solidez financeira do banco para manter suas operações e negócios ativos.
Desdobramentos da Operação e Liquidações no Mercado
A primeira fase da Operação Compliance Zero já havia levado à prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então proprietário do Banco Master, em 17 de novembro de 2025. Ele é acusado de ser o mentor do esquema de venda de créditos fictícios ao BRB, embora tenha sido posteriormente solto. Um dia após a prisão de Vorcaro, o Banco Central determinou a liquidação do Banco Master. Os reflexos da operação se estenderam ao mercado, com a liquidação da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (antiga Reag Trust) em 15 de dezembro, e do Will Bank, em 21 de dezembro, evidenciando um período de maior rigor e reavaliação de ativos no setor financeiro.
À medida que a Polícia Federal prossegue com os depoimentos, espera-se que novas informações surjam para elucidar completamente o complexo enredo por trás da tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB. O desfecho da Operação Compliance Zero será fundamental para a integridade e transparência do sistema financeiro nacional, reforçando a importância da fiscalização e do cumprimento rigoroso das normas regulatórias.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

