A caderneta de poupança, tradicional porto seguro dos brasileiros, está em um processo de desinvestimento acelerado. Nos últimos cinco anos, a modalidade registrou uma impressionante perda líquida de R$ 327,59 bilhões, conforme dados do Banco Central. Esse movimento reflete uma mudança estrutural no comportamento do investidor nacional, que, cada vez mais informado e com acesso facilitado a outras opções, busca rentabilidades mais atrativas e alinhadas ao cenário macroeconômico, especialmente no universo da renda fixa.
A Desvalorização da Poupança e a Busca por Rentabilidade Superior
A erosão do capital na poupança não é um fenômeno recente. Somente no ano passado, as cadernetas de poupança registraram resgates líquidos de R$ 85,568 bilhões, marcando o quinto ano consecutivo de saídas e um dos maiores déficits da história da aplicação. Ao final de 2025, o patrimônio total investido na poupança encerrou o período em R$ 1,022 trilhão. A principal razão para essa diminuição drástica reside na rentabilidade da caderneta, que se mostra consistentemente inferior a outras opções de baixo risco.
Comparando o desempenho, em um horizonte de cinco anos, a poupança acumulou um rendimento de 43,47%. No mesmo período, o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) entregou 68,16%, o que representa um ganho líquido de 57,94% após a incidência de 15% de imposto de renda. Essa diferença é significativa: um investimento de R$ 10 mil na poupança renderia R$ 4.347,00, enquanto no CDI, o mesmo valor geraria R$ 5.794,00 líquidos – uma vantagem de R$ 1.447,00 para o investidor. Em dez anos, a disparidade é ainda maior, com o CDI superando a poupança em R$ 2.395,00 para um investimento inicial de R$ 10 mil, mesmo após o desconto do imposto.
Fatores Estruturais Impulsionam a Migração Financeira
A perda de relevância da poupança é o resultado de uma combinação de fatores estruturais, e não apenas uma mudança abrupta no apetite ao risco, conforme observa Gustavo Assis, presidente da Asset Bank. Com a taxa Selic mantida em patamares elevados, o investidor percebeu que a poupança oferece uma remuneração intrinsecamente baixa, incapaz de acompanhar os ciclos de juros e a inflação. Em contraste, outras opções de renda fixa passaram a oferecer retornos superiores sem exigir uma alteração significativa no perfil de risco do investidor.
Instrumentos como o Tesouro Selic, Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com liquidez diária, Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e do Agronegócio (LCAs) – estas últimas isentas de imposto de renda – passaram a cumprir o mesmo papel de preservação de capital e liquidez que a poupança, mas com uma remuneração mais alinhada ao ambiente macroeconômico. A digitalização do mercado financeiro e o aumento da transparência das plataformas de investimento foram cruciais para essa transição, facilitando o acesso e a comparação entre diferentes produtos, enfraquecendo assim o papel da poupança como aplicação padrão.
O Crescimento Exponencial de Alternativas na Renda Fixa
O movimento de realocação de capital é evidente nos dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, enquanto o número de contas de poupança cresceu 12%, para 85,6 milhões, o saldo total investido avançou apenas 3,88%, atingindo R$ 947,5 bilhões. Em contrapartida, no mesmo período, o número de contas de CDBs disparou 33,9%, chegando a 67,2 milhões, com o volume financeiro aumentando 42,7%, para R$ 1,251 trilhão.
As LCAs também demonstraram forte crescimento, com um aumento de 23,66% no número de contas (para 2,3 milhões) e um avanço de 24,7% nos depósitos, alcançando R$ 543,741 milhões. As LCIs, embora com menor crescimento em contas (5,5%, para 2,65 milhões), viram seu volume financeiro expandir 29,9%, totalizando R$ 431,2 bilhões. As debêntures incentivadas, que oferecem isenção de imposto, foram um dos destaques, somando 428 mil contas em novembro de 2025 (um crescimento de 24,17%) e um volume investido que saltou 43,7%, para R$ 97,981 bilhões.
Disciplina e Análise: Os Novos Paradigmas para o Investidor
Edgar Araújo, presidente da Azumi Investimentos, descreve o cenário atual como uma realocação racional de capital impulsionada pelo “novo preço do dinheiro”. Com taxas de juros elevadas por um período prolongado, o investidor naturalmente buscou alternativas na própria renda fixa que mantivessem a segurança, mas oferecessem retorno superior. Esse fluxo migratório se direcionou principalmente para CDBs, LCIs e LCAs – impulsionados pela liquidez diária, proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e, em alguns casos, pela isenção de imposto – além de debêntures incentivadas e fundos estruturados como os FIDCs, que permitem acesso a carteiras de crédito diversificadas.
No entanto, Araújo alerta que essa migração exige maior disciplina e análise por parte do investidor. É fundamental avaliar o risco de crédito do emissor, as garantias oferecidas, a estrutura jurídica, a liquidez e o prazo dos papéis. A busca por maior rentabilidade deve vir acompanhada de uma maior responsabilidade na análise, pois, como destaca Isabela Perez, head de RI da Rio Bravo Investimentos, em um ambiente de Selic alta, outros produtos como Tesouro Direto, CDBs e fundos de renda fixa se tornam muito mais atrativos, mesmo que tributados, mas ainda dentro de um perfil conservador.
Em suma, o mercado de renda fixa brasileiro está passando por uma significativa transformação, com a poupança perdendo seu domínio para opções mais rentáveis e acessíveis. Essa evolução exige do investidor um olhar mais atento e estratégico para suas escolhas financeiras, priorizando a rentabilidade sem negligenciar a segurança.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

