As ações da Sabesp (SBSP3) têm demonstrado notável vigor no mercado, acumulando uma alta superior a 50% nos últimos 12 meses. Contudo, a recente diminuição dos níveis dos reservatórios e as chuvas abaixo da média reacenderam o debate entre analistas sobre a segurança do abastecimento de água em São Paulo, colocando em xeque o otimismo com a companhia. Em meio a esse cenário, dois dos principais bancos de investimento, Safra e Bradesco BBI, apresentam visões distintas sobre o futuro da empresa, embora a aceleração do processo de privatização da Sabesp tenha atenuado parte das preocupações com cenários mais adversos.
A Perspectiva Cautelosa do Safra Diante da Escassez Hídrica
O Banco Safra adotou um tom mais conservador em seu relatório recente, rebaixando a recomendação para a ação da Sabesp de 'compra' para 'neutra', embora tenha elevado o preço-alvo de R$ 144,10 para R$ 146. A cautela do Safra deriva principalmente da hidrologia desfavorável e do potencial risco de medidas adicionais necessárias para garantir o fornecimento de água. O banco estima uma Taxa Interna de Retorno (TIR) de aproximadamente 10,5%, e apesar de considerar os múltiplos de negociação da companhia – 1,2 vez VF/RAB (Valor da Firma sobre Base de Ativos Regulatórios) e 6,9 vezes VF/EBITDA (Valor da Firma sobre lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) para 2026 – como razoáveis, avalia que o potencial de valorização é limitado no curto prazo.
A análise do Safra enfatiza a gravidade da situação dos reservatórios, em particular o Sistema Cantareira, que responde por cerca de 50% da capacidade total de produção de água da Sabesp. Desde agosto de 2025, a região tem enfrentado uma seca severa, resultando em uma afluência total de água que atingiu aproximadamente 50% da média histórica naquele ano. Em janeiro deste ano, a afluência iniciou-se abaixo de 25% da média de longo prazo, melhorando para cerca de 40% nos últimos dias devido a chuvas mais recentes, mas ainda insuficiente. Consequentemente, o reservatório opera atualmente com apenas 20,8% de sua capacidade máxima, um nível considerado preocupante.
Para mitigar o cenário de baixa oferta hídrica, a Sabesp já implementou diversas ações, como a transferência de volumes da usina hidrelétrica de Jaguari, a antecipação de investimentos em reservatórios alternativos, o aumento da flexibilidade operacional e a redução da pressão nas tubulações durante a noite (das 19h às 5h), visando diminuir perdas. Embora essas iniciativas possam aliviar temporariamente a restrição do Cantareira até o inverno, o Safra alerta para o risco de um impacto negativo nos volumes distribuídos em 2026, caso as condições hidrológicas não apresentem uma melhora sustentada.
Otimismo com Resiliência Operacional e Crescimento de Longo Prazo do Bradesco BBI
Em contraponto à visão cautelosa, o Bradesco BBI mantém uma perspectiva construtiva sobre a Sabesp, classificando o risco de desabastecimento como mínimo. Segundo o banco, os níveis totais dos reservatórios, que atingiram 43% no final de março – comparado à média histórica de 50% a 70% – e a projeção de cerca de 30% para o final de outubro, não indicam um cenário crítico. O BBI não antevê a necessidade de um racionamento oficial, estimando que a empresa deve prosseguir, no máximo, com a estratégia de redução de pressão noturna no fornecimento de água, através do programa de Gestão da Demanda Noturna (GDN), medida já em prática.
A eficácia do GDN é ressaltada pelo BBI, que aponta para uma redução de aproximadamente 6% no volume total retirado dos reservatórios sem que houvesse impacto relevante nas vendas da companhia. Adicionalmente, o banco destaca que a projeção para outubro coincide com o início da nova estação chuvosa e que não há um precedente histórico que sugira que um ano hidrológico desfavorável seja necessariamente seguido por outro. Além disso, a capacidade de abastecimento da Sabesp será reforçada no primeiro trimestre de 2027 com a adição de cerca de 5 metros cúbicos por segundo de nova oferta de água, equivalente a um incremento de 6% sobre o total atual, o que oferece uma margem de segurança adicional.
A Universalização do Saneamento como Vetor de Valorização
Um dos pilares fundamentais da visão otimista do Bradesco BBI para a Sabesp reside no imenso potencial de crescimento dos lucros impulsionado pela universalização dos serviços de saneamento em São Paulo, com prazo estabelecido até 2029. Este projeto de grande envergadura posiciona a Sabesp como um ativo preferencial dentro do setor de serviços públicos (utilities), prometendo uma expansão significativa de sua base de clientes e receitas.
A instituição financeira observa que as ações da empresa atualmente precificam uma Taxa Interna de Retorno (TIR) real de 10,2%, o que representa um spread de 2,80 pontos percentuais acima do rendimento do título NTN-B (IPCA+) do Brasil. Embora este spread possa ser percebido como relativamente ajustado, o BBI argumenta que existe espaço para compressão dessa taxa. Tal compressão seria impulsionada pelo avanço da companhia no processo de universalização, pela perspectiva de distribuição de dividendos elevados e pela consolidação da Sabesp como uma plataforma estratégica para o crescimento inorgânico, fatores que poderiam, em última instância, elevar seu preço-alvo.
Em suma, o cenário para as ações da Sabesp é marcado por uma tensão entre os desafios hídricos de curto prazo e o robusto potencial de valorização de longo prazo. Enquanto o alerta do Safra sobre a situação dos reservatórios serve como um lembrete das vulnerabilidades operacionais ligadas ao clima, a análise do Bradesco BBI reforça a resiliência da companhia e, mais importante, o catalisador transformador que a universalização do saneamento representa. A privatização em andamento adiciona uma camada de otimismo, ao passo que os investidores sopesam a necessidade de monitorar de perto os indicadores hídricos contra as promissoras perspectivas de crescimento e rentabilidade que a Sabesp pode oferecer no horizonte de uma década.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

