A semana derradeira de janeiro marca um momento crucial para o mercado financeiro, com a aguardada reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) programada para esta terça e quarta-feira. O consenso entre analistas aponta para a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, no patamar atual de 15%. Contudo, a XP Investimentos vai além da decisão iminente, traçando um panorama ambicioso para a trajetória da Selic nos próximos anos, com projeções que se estendem até 2027 e indicam um cenário de cortes graduais, mas condicionados.
As Projeções da XP para o Ciclo de Cortes
De acordo com o relatório assinado pelo economista-chefe Caio Megale, Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, a expectativa da XP é que o Banco Central inicie seu ciclo de flexibilização monetária em março. O cenário-base prevê uma sequência de cinco cortes consecutivos, cada um de 0,50 ponto percentual, seguida por uma pausa para reavaliação no segundo semestre. Este ritmo levaria a Selic a encerrar 2025 em 12,5%. A projeção de longo prazo da instituição aponta para uma taxa de 11% ao final de 2027, embora ressaltando que a concretização desses cortes adicionais está intrinsecamente ligada à evolução do controle dos gastos públicos.
Inflação e Atividade Econômica: Pressões Conflitantes
A análise da XP destaca que os principais indicadores econômicos permaneceram estáveis desde dezembro, com a taxa de câmbio em patamar similar ao fim do ano anterior e poucas alterações nas expectativas de mercado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e da inflação. No que tange à inflação, o cenário apresenta forças opostas. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2025, que fechou em 4,26%, encontra-se dentro da margem de tolerância da meta oficial de 3% (com variação de +/- 1,5 p.p.). Os economistas observam positivamente que os núcleos da inflação se mantêm entre 3,5% e 4%, e os preços ao produtor, aferidos pelo IPA-FGV, mostram desaceleração, sugerindo um alívio nas futuras leituras do IPCA.
No entanto, fatores como a desaceleração gradual da atividade econômica, combinada com dados recentes do mercado de trabalho, geram tensões sobre os preços. Adicionalmente, a elevação dos preços das commodities no início deste ano surge como um potencial novo fator de preocupação, podendo impactar a dinâmica inflacionária e adicionar complexidade às decisões futuras do Copom.
A Influência da Política Fiscal e do Cenário Eleitoral nos Juros Futuros
O ano eleitoral introduz uma variável adicional na equação econômica, com a política fiscal ganhando ainda mais destaque. Em um contexto de inflação em recuo – ainda que insuficiente para convergir à meta de 3% –, o foco se volta para a gestão dos gastos governamentais e a viabilidade de uma reforma estrutural nas contas públicas a partir de 2027. O cenário-base da XP prevê que o próximo governo implementará medidas de contenção de despesas, porém, estas seriam insuficientes para cobrir o desequilíbrio entre dívida pública e PIB. Essa avaliação impacta diretamente a capacidade do Banco Central de promover cortes mais agressivos, limitando a queda da taxa de juros para 11% ao fim de 2027.
Os analistas da XP ressaltam a dependência da política fiscal para cenários alternativos. Caso as medidas de ajuste consideradas insuficientes no cenário-base não se materializem, o Banco Central provavelmente não terá espaço para efetuar cortes adicionais em 2027. Por outro lado, a implementação de um conjunto mais abrangente e robusto de ajustes fiscais poderia criar as condições necessárias para que a Selic convergisse para seu nível neutro real, estimado em torno de 5,5%. Essa divergência sublinha a criticidade da disciplina fiscal na determinação do futuro da política monetária no Brasil.
Em suma, o caminho da Selic, embora apontando para uma trajetória de queda, permanece intrinsecamente ligado à capacidade do país de gerir suas contas públicas e de controlar os fatores de pressão inflacionária. A expectativa do mercado, portanto, transcende a próxima reunião do Copom, estendendo-se à vigilância sobre as decisões fiscais e o desdobramento do cenário político nos próximos anos.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

