A morte da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, após nadar na piscina da Academia C4 Gym, no Parque São Lucas, zona leste de São Paulo, revelou um cenário preocupante de negligência e falta de preparo. A principal linha de investigação aponta para intoxicação, e as apurações da Polícia Civil trouxeram à tona que o manobrista, identificado como Severino Silva, de 43 anos, era o encarregado pela manutenção da piscina, seguindo instruções de um dos sócios da academia repassadas exclusivamente por mensagens de WhatsApp. Este método incomum e a ausência de qualificação técnica levantam sérias questões sobre a segurança do estabelecimento, que permanece interditado.
Manutenção Remota e Sem Qualificação: O Ponto Central da Tragédia
Severino Silva, que atuava na academia há cerca de três anos como ajudante-geral, acumulava funções, incluindo o tratamento da água da piscina. Em seu depoimento no 42º Distrito Policial, ele afirmou não possuir qualquer formação técnica ou curso específico para lidar com produtos químicos. As orientações cruciais para a limpeza e ajuste dos níveis da água eram enviadas remotamente por um dos sócios. Segundo o delegado Alexandre Bento, o funcionário fazia medições, tirava fotos da piscina e as enviava, recebendo em troca as proporções exatas de cloro, elevador de pH e outros produtos a serem utilizados, tudo à distância e sem contato presencial.
A polícia está analisando o conteúdo das conversas no aplicativo, buscando verificar a integridade das informações e se houve a exclusão de mensagens ou arquivos que pudessem ser relevantes para a investigação. Essa prática de supervisionar um processo tão delicado de forma remota, confiando a tarefa a um funcionário sem o devido treinamento, configura um dos eixos principais da apuração sobre as responsabilidades no caso.
Riscos Químicos e o Protocolo Questionável
A forma como os químicos eram manuseados e aplicados na C4 Gym é um dos focos da investigação. Severino relatou que preparava a mistura em um balde, deixando-o na borda da piscina. A aplicação final na água, segundo ele, era feita pelos professores ao término das atividades. Além da falta de qualificação do responsável pela mistura, os investigadores levantam a hipótese de que a academia possa ter substituído produtos químicos tradicionais por outros mais concentrados e de custo reduzido, o que poderia ter contribuído para a tragédia. O delegado alertou, ainda, para o perigo da mistura de cloros de marcas diferentes, prática que pode gerar reações químicas perigosas e imprevisíveis.
A perícia técnica é fundamental para esclarecer o tipo de substância utilizada, sua concentração e a qualidade dos produtos aplicados, bem como a conformidade do processo de tratamento da água com as normas de segurança. Esses dados serão cruciais para determinar se houve falhas nos protocolos ou uso inadequado dos químicos.
Múltiplas Vítimas e o Impacto da Tragédia
A fatalidade que vitimou Juliana não foi um caso isolado. Além da professora, outras nove pessoas participavam da aula de natação no dia do incidente. Entre elas, o marido de Juliana, Vinicius de Oliveira, permanece internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Um adolescente de 14 anos também segue hospitalizado, dependendo de aparelhos para respirar. Outra vítima é uma mulher que acompanhava a filha na atividade e que igualmente necessitou de internação. A situação desses pacientes sublinha a gravidade do incidente e a extensão do perigo a que foram expostos.
Manifestações da Academia e da Defesa do Funcionário
A Academia C4 Gym se pronunciou por meio de suas redes sociais no domingo, lamentando o ocorrido e afirmando que acompanha de perto o estado de saúde dos alunos afetados, prestando todo o apoio possível. A empresa declarou ter interrompido imediatamente as atividades da piscina, acionado o socorro e seguido todas as orientações das autoridades competentes assim que tomou conhecimento do incidente.
Por sua vez, a defesa de Severino Silva, o funcionário responsável pela mistura dos produtos químicos, argumentou que ele apenas cumpria determinações superiores. Em nota, foi enfatizado que o manobrista “obedeceu ordens”, indicando que sua atuação se limitava a executar instruções, sem autonomia ou capacidade técnica para questioná-las.
Os Próximos Passos da Apuração e as Implicações Legais
A academia permanece interditada enquanto as investigações prosseguem. O laudo conclusivo sobre a causa da morte de Juliana ainda não foi emitido, dependendo do exame de necropsia e da perícia toxicológica. A Polícia Civil já trabalha com a existência de indícios de crime e busca agora individualizar as condutas, visando apontar as responsabilidades de cada envolvido. O desfecho dessa investigação pode ter amplas implicações para as normas de segurança e supervisão em estabelecimentos que operam com piscinas e produtos químicos, enfatizando a necessidade de capacitação e fiscalização rigorosas para evitar futuras tragédias.
Fonte: https://portalleodias.com

